Riscos assumidos com o fornecimento de transporte ao empregado por Benôni Rossi
O acidente ocorrido no deslocamento entre a residência do empregado e o local de prestação de serviços, apesar de ser equiparado ao acidente de trabalho para fins previdenciários, não acarreta à empresa a responsabilidade de indenizar danos morais e materiais decorrentes de eventual lesão, pois não tem o empregador ingerência sobre as condições de segurança do transporte público ou sobre outro meio utilizado pelo trabalhador, como bicicleta, carro ou moto.
O empregador só pode ser responsabilizado por dano decorrente de acidente de trabalho se agir com culpa ou dolo, deixando de praticar atos que previnam um possível acidente ou assumindo os riscos de situações que exponha a saúde do empregado.
Cabe aqui fazer um alerta às empresas que fornecem transporte próprio aos seus empregados. Ao assumir a responsabilidade pelo transporte, o empregador também assume os riscos decorrentes desse serviço, que em realidade visa beneficiar o trabalhador.
O artigo 734 do Código Civil estabelece a responsabilidade do transportador pelos danos causados às pessoas transportadas e suas bagagens, ainda que o acidente com passageiro tenha sido culpa de terceiro, contra o qual é possível ação regressiva. Se o empregador oferece o transporte, assume os riscos decorrentes dessa atividade. Há atribuição de responsabilidade de forma objetiva, independentemente de culpa ou dolo, situação diversa do que atualmente dispõe a Constituição Federal para os acidentes de trabalho.
Mesmo que o transporte seja fornecido gratuitamente ou que vise apenas dar maior conforto aos trabalhadores, o empregador que prestar esse serviço pode vir a ser responsabilizado por acidentes de trânsito. A empresa deve dimensionar o ganho obtido com o fornecimento do transporte em relação ao interesse do negócio, como necessidade ou presença de mão de obra no local de serviço com pontualidade e regularidade. Mas deve fazer tal avaliação conhecendo integralmente os riscos.
Portanto, o empregador que transporta trabalhadores acaba arcando com os riscos de acidentes do trânsito. A empresa somente deve fornecer o transporte em caso de extrema necessidade. Não há como ser outra a postura do empresário, que em sua atividade já assume diversos riscos e não tem motivo para também assumir outros, ainda mais decorrentes de atividade estranha ao negócio.
*Mestre em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
A continuidade do trabalho, após a concessão da aposentadoria, vem sendo objeto de controvérsias e dúvidas por parte dos empregadores em face das repercussões jurídicas e efeitos práticos sobre o contrato de trabalho.
A controvérsia mais conhecida e debatida até data recente, diz respeito à hipótese tratada pelo art. 453, §2º, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), segundo a qual o empregado aposentado em decorrência de espontâneo requerimento que não tenha completado trinta e cinco anos de serviço, se homem, ou trinta, se mulher, importaria na extinção do vínculo de emprego.
Todavia, a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 1.721-3, que questionou o referido dispositivo legal, resultou na decisão do Supremo Tribunal Federal que entendeu que a Constituição Federal versa a aposentadoria como um benefício que se dá mediante o exercício regular de um direito e que este não deve colocar o seu titular numa situação ainda mais prejudicial do que aquela que resultaria do cometimento de uma falta grave, já que a ruptura do vínculo empregatício não se opera automaticamente.
Os fundamentos da decisão do STF, foram os seguintes:
"[...] O Ordenamento Constitucional não autoriza o legislador ordinário a criar modalidade de rompimento automático do vínculo de emprego, em desfavor do trabalhador, na situação em que este apenas exercita o seu direito de aposentadoria espontânea, sem cometer deslize algum.
A mera concessão da aposentadoria voluntária ao trabalhador não tem por efeito extinguir, instantânea e automaticamente, o seu vínculo de emprego.
Inconstitucionalidade do § 2º do art. 453 da Consolidação das Leis do Trabalho, introduzido pela Lei nº 9.528/1997".
Nesse mesmo contexto, relevante destacar a hipótese tratada pelo § 8º, do art. 57, da Lei 8.213/91, ou seja, o Cancelamento ou Suspensão da Aposentadoria Especial por força da continuidade do trabalho nas mesmas condições que justificaram a concessão do benefício.
A aposentadoria especial deferida e implantada, seja na via administrativa, seja na via judicial, passa a se sujeitar à determinação contida no art. 57, § 8º c/c art. 46 da Lei nº 8.213, de 1991, de modo que deve o empregado afastar-se do exercício de atividades que o sujeitem a condições nocivas.
O art. 46 referido acima dispõe sobre a situação do aposentado por invalidez que, espontaneamente, retornar à atividade laboral tendo, por isso, o seu benefício automaticamente cancelado á partir da data do retorno. Entende o juiz Federal Daniel Machado da Rocha que: Para tornar compulsória a regra, a Lei n. 9.732/98 impôs ao segurado descumpridor do preceito a penalidade de suspensão da aposentadoria, pois seria descabido o cancelamento do benefício como ocorre com o aposentado por invalidez que volta a exercer a atividade remunerada, nos termos do art. 46 da Lei de Benefícios.
Nesta linha, se houver continuidade da relação de emprego com sujeição às mesmas condições de trabalho nocivas (art. 58, da Lei 8.213/91), ao menos para efeitos previdenciários o empregado poderá ter suspenso o seu benefício como forma de obrigá-lo a não permanecer trabalhando nas mesmas condições.
Não obstante o referido § 8º do art. 57 da Lei 8.213/91 seja objeto de questionamento quanto à sua constitucionalidade por autores como Wladimir Martinez e Sérgio Freudenthal, até o momento inexiste qualquer decisão do STF que reconhecendo a inconstitucionalidade do dispositivo. Desse modo, em caso de eventual fiscalização, é provável a suspensão do benefício se o empregado continuar trabalhando nas mesmas condições.
Para o empregador, o efeito prático está em que seus empregados mais experientes, então sujeitos à sanção imposta pela legislação previdenciária, terão que se afastar do trabalho até então desenvolvido. A forma pela qual este afastamento deverá ser procedido pela empresa é questão que segue em aberto pois, como referido inicialmente, não existe disposição legal vigente que autorize o rompimento automático do vinculo de emprego. Como a sanção recai sobre o trabalhador, em princípio exclusivamente dele a decisão de se afastar espontaneamente do trabalho ou ter seu benefício cancelado ou suspenso.
Por fim, quanto à eventual remanejamento do empregado dentro da organização da empresa para efeito de possibilitar a continuidade do contrato de trabalho, tal hipótese se insere na esfera da conveniência e necessidade do empregador, pois também não existe disposição legal que garanta tal beneficio.
* Especialista em Direito Previdenciário pela Escola da Magistratura Federal
Muita confusão em apenas dois artigos. Isso foi o que conseguiu nosso legislador ao regulamentar o aviso prévio proporcional com a publicação da Lei nº 12.506/11. Da análise ao texto da lei, em vigor desde 13/10/11, pode-se esclarecer que para aquele empregado que não completou dois anos de serviço, o aviso prévio continua sendo de 30 dias. Para o empregado que possui dois anos ou mais de serviço, aos 30 dias devem ser acrescidos três dias de aviso por ano de serviço prestado na mesma empresa. O cálculo é simples: empregado com dois anos de empresa, o aviso deve ser de 33 dias; empregado com três anos de empresa, 36 dias; e assim sucessivamente, até o máximo de 90 dias de aviso. Portanto, o empregado que completar 21 anos de empresa atinge o teto previsto na lei.
Embora pareça simples, a nova regra gera dúvidas. A mais interessante delas é se o empregado também tem a obrigação de conceder o aviso proporcional. Apesar de constar no art. 1º da Lei nº 12.506, que o aviso prévio “será concedido na proporção de 30 (trinta) dias aos empregados...”, e não ter previsão expressa de que essa obrigação também é do trabalhador em relação ao empregador, o próprio artigo refere que a proporcionalidade estabelecida na nova lei regulamenta o aviso prévio de que trata o Capítulo VI do Título IV da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Esse capítulo da CLT regulamenta todo o instituto do aviso prévio, e não somente, a obrigação do empregador. Nesse mesmo capítulo, no § 2º do artigo 487 da CLT, está estabelecida a possibilidade do desconto dos salários do correspondente período por parte do empregador quando o empregado não concede o aviso. No caput do art. 487 há referência de que “a parte que, sem justo motivo, quiser rescindir o contrato deverá avisar a outra da sua resolução...”. O texto da Lei nº 12.506 não é claro, mas ao mencionar que a regulamentação é do aviso de que trata o Capítulo VI do Título IV da CLT, o que se estabeleceu foi a proporcionalidade de uma obrigação mútua existente e não uma nova obrigação, exclusiva do empregador.
Assim, o empregado que tiver mais de dois anos de trabalho na mesma empresa também deverá ter o cuidado de avisar antecipadamente sua intenção de rescindir o contrato, sob pena de desconto do correspondente período. A finalidade do aviso prévio proporcional é dar mais tempo para a outra parte buscar ou um novo emprego ou um novo empregado. O empregador que conta com empregado de maior tempo de casa também tem mais dificuldade em repor essa mão de obra e necessita da proporcionalidade estabelecida na lei para gestão do seu negócio.
Outra dúvida é se a lei se aplica aos contratos já rescindidos ou com aviso prévio em vigor. O fato gerador de incidência da norma é o ato de concessão do aviso prévio. Não pode se admitir a aplicação retroativa da norma, sob pena de ofensa aos princípios da Constituição Federal de 1988. Segundo o artigo 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal de 1988, a lei não deve prejudicar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. Se o aviso prévio foi concedido antes de 13/10/2011, e na época, não havia regulamentação sobre a matéria, as partes não podem ser surpreendidas com o aumento do período de concessão do pré-aviso. Essas são considerações iniciais sobre um tema que certamente trará muitas discussões, inclusive na esfera judicial.
* Mestre em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Discute-se sobre o direito dos médicos ao intervalo intrajornada para repouso e alimentação previsto no art. 71 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), face o disposto no § 1º do art. 8º, da Lei nº 3.999/61, que prevê a concessão de repouso de dez minutos a cada noventa laborados.
A concessão do intervalo de dez minutos a cada noventa trabalhados, previsto no artigo 8º, § 1º, da Lei nº 3.999/61, possui o mesmo fim daquele período de descanso de que trata o artigo 71 da CLT, qual seja, visa não só a amenizar os riscos inerentes ao trabalho desenvolvido, mas também a preservar a higidez física e mental do empregado.
Entendemos que há incompatibilidade entre a norma especial da Lei nº 3.999/61 e o previsto no art. 71 da CLT. Filiamo-nos às decisões que entendem que fazendo jus ao descanso de dez minutos a cada 90 minutos laborados, os médicos não fariam jus ao intervalo intrajornada para repouso e alimentação previsto no art. 71 da CLT.
Ressalta-se que a matéria é bastante divergente perante os nossos Tribunais, mas as decisões majoritárias são no sentido de que não há incompatibilidade entre a concessão do intervalo intrajornada previsto no art. 71 da CLT e o intervalo previsto no § 1º do art. 8º, da Lei nº 3.999/61, cabendo ao empregador a concessão dos dois intervalos aos médicos, considerando a jornada de trabalho de cada profissional.
Destacamos que com relação ao intervalo de dez minutos a cada 90 laborados, não fica o empregador obrigado a exigir o registro de tal descanso em registro de horário, não cabendo ao empregador comprovar o efetivo gozo do descanso de dez minutos a cada 90 minutos laborados, sendo inaplicável o disposto no § 2º do art. 74 da CLT.
A Lei nº 3.999/61 não estabelece a obrigatoriedade de o empregador produzir prova pré-constituída, qual seja o registro prévio do período, recaindo sobre o empregado a incumbência de comprovar o fato constitutivo de seu direito. Caberá ao empregado comprovar que não goza de tal descanso (Lei nº 3.999/61), na forma do art. 818 da CLT e art. 333, I do Código do Processo Civil. O empregador fica obrigado a conceder o descanso de dez minutos para cada 90 minutos trabalhados e o intervalo intrajornada para repouso e alimentação aos médicos, consoante decisões majoritárias de nossos Tribunais Pátrios.
* Pós-Graduada em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pelo Instituto de Desenvolvimento Cultural
O tema dos limites ao exercício da liberdade da imprensa vem sendo debatido faz muitos anos no âmbito do Judiciário, angariando decisões que muitas vezes se conflitam e geram, de certa forma, insegurança quanto ao posicionamento adotado pelos órgãos responsáveis pelo julgamento das causas.
Das rotineiras ações levadas à apreciação se extraem decisões que variam entre dois extremos: da concessão de liberalidade aos meios de imprensa àquelas que remontam e fazem uso de mecanismos ultrapassados como, por exemplo, a censura. A discussão sobre a forma de atuação da mídia tornou-se mais ampla a partir do ano de 2009, com a revogação da chamada Lei de Imprensa (nº 5.250/67), norma elaborada em pleno Regime Militar que continha regras duras e excessivamente controladoras da atividade da mídia, mas que se via como única lei reguladora da atividade jornalística.
A partir desse histórico momento, passou o Judiciário a se valer das normas de conteúdo geral expostas pela Constituição Federal, que zelam de forma ampla pela preservação dos direitos individuais e coletivos e, com base nisso, surgiram as mais diversas teses sobre onde e quando terminariam os direitos de noticiar da imprensa.
O tema é amplo e, por isso mesmo, apenas se tratará da tese mais aceita pelo sistema judiciário atual, particularmente entendida como a mais acertada. Diante da necessidade de proteção igualitária dos direitos das pessoas individualmente consideradas e da coletividade, o desenvolvimento contemporâneo da sociedade, que é refletido nas decisões judiciais, vem apontando para a necessidade, sempre, de valoração dos bens postos em jogo para apreciação de qual deve prevalecer sobre os outros.
No caso da atividade jornalística, o bem é a liberdade de expressar sentimentos e entendimentos, a liberdade de informar sobre fatos relevantes para a sociedade, de destaque tal que se possa afirmar, por isso, conterem interesse público. Num sentido mais claro, é o direito que ultrapassa o individualismo, abordando benefícios à sociedade. Por sua vez, do outro lado estará o direito pessoal, singular, que visa proteger apenas o patrimônio particular de determinada pessoa, seja esse patrimônio material ou de ordem íntima, como a honra e a imagem. O pesar desses dois valores é que indicará o caminho correto quando existir confronto entre o resultado da atividade da mídia e o patrimônio individual de uma pessoa.
A notícia, para que prevaleça, deve estar amparada em fonte confiável, ser restrita ao relato de fatos concretos e, ainda, atrelada à verdade. Mas a verdade aqui referida não é a verdade absoluta, aquela verdade imutável por qualquer vicissitude do tempo. Aqui, a verdade é submetida a elemento temporal: hoje será verdadeira uma informação atrelada à realidade, aos fatos apurados hoje; amanhã, caso a situação venha a se alterar, apenas surgirá nova realidade, mas que não desnuda a natureza da informação anteriormente vertida.
É dever da imprensa veicular informações amparadas nessa verdade contemporânea, a verdade que corresponda àquele momento em que divulgada. Como em determinado julgamento afirmou a Ministra do Superior Tribunal de Justiça, Ellen Gracie, a atividade da imprensa não é semelhante a do Judiciário, pois limitada em seus meios e pelas razões temporais de sua divulgação.
Esse, por exemplo, é o caso de um sujeito que, preso hoje, tenha sua detenção noticiada, mas, passados dois anos, no curso de processo penal, venha a ter sua inocência provada. Quando de sua prisão, a informação era verdadeira: recaia suspeita sobre o sujeito de incursão em algum crime previsto em lei. A eventual absolvição apenas fará surgir nova realidade, mas nem por isso poderá taxar de falsa a notícia antes divulgada, à época da prisão.
Apenas quando os fatos noticiados forem totalmente dissociados da realidade então presente é que se fará surgir a responsabilidade civil, por conseqüência equivocada a divulgação. Haverá, nessa atuação, criação da possibilidade de dano e conseqüente indenização. Por outro lado, havendo a observação de determinados critérios, não podem os órgãos da mídia desfalecerem em reprimendas ditatoriais, como censura ao seu livre agir. O Judiciário resguarda o direito de todos, assim como a imprensa zela pelo alcance de informações preciosas ao desenvolvimento de uma sociedade ativa e altiva.
* Pós-Graduando em Direito Civil e Processual Civil pelo Centro Universitário Ritter dos Reis
Os Juizados Especiais Cíveis (JECs) têm como competência a conciliação, julgamento e execução de causas de menor complexidade fática até o limite econômico de quarenta vezes o salário mínimo. Seu sistema igualmente realiza o cumprimento de seus próprios julgados e dos títulos extrajudiciais (cheques, duplicatas, notas promissórias, entre outros) cujos valores também não excedam ao valor econômico mencionado.
A sua inspiração atende aos princípios da celeridade, objetividade, informalidade e eficácia na prestação jurisdicional na solução de conflitos. Desde seu surgimento, pacífico que se a discussão da causa envolvesse questão técnica cuja elucidação dependesse de prova pericial, estaria tal ação excluída da possibilidade de processamento perante os JECs, remetendo as partes para a justiça comum. A falta de definição exata sobre o conceito de “causas complexas” sempre trouxe dúvidas aos julgadores que, até então, tinham como entendimento basilar a inviabilidade da perícia nas causas que tramitavam nos juizados.
Ainda que prevaleça na jurisprudência o entendimento de que, havendo necessidade de perícia, estaria automaticamente configurada a complexidade da causa, recentemente por unanimidade a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu de forma contrária, considerando o Juizado Especial Civil competente para julgar os processos que envolvam a necessidade da prova pericial. Na oportunidade, discutia-se a competência dos JECs em razão da alegação de incompetência realizada por empresa produtora de cigarros, eis que condenada ao pagamento de indenização por danos causados a saúde de um consumidor.
Inconformada, a empresa levou o caso ao Supremo Tribunal Federal que posicionou pela negativa de desempenho da prova técnica. É importante ressaltar que não há proibição expressa na lei dos Juizados Especiais (lei 9099/95) quanto à realização de perícia. Ao contrário, o diploma prevê que possa o juiz inquirir técnicos de sua confiança e autoriza as partes à apresentação de pareceres técnicos. Em que pese a decisão do STF, o precedente do Superior Tribunal de Justiça é inovador, abrindo margem para renovação do debate sobre o tema.
* Diplomada na Escola Fundação da Magistratua do Trabalho do Rio Grande do Sul, em 2005. Pós-Graduada em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pelo Instituto de Desenvolvimento Cultural, em 2007
**Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em 2011 e pós-graduanda em Processo Civil pela Verbo Jurídico
Com mais de quinze anos em vigor, a atual Lei nº 9.279/96, que rege a Propriedade Industrial, veio justamente para resguardar os direitos advindos do intelecto humano, em especial, dos produtos e serviços criados, objetos inventados ou aprimorados, sendo estes geradores de inovações e eficiências.
Destaca-se que a Marca, devidamente Registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, é um patrimônio, conforme prevê o art. 5.º da referida Lei. Ao registrá-la você estará protegendo a identidade e a individualidade de seus produtos e serviços, estará combatendo a pirataria e usufruindo de sua legitima propriedade, e tendo exclusividade em sua utilização. A Lei assegura a vigência de uma marca pelo período de 10 anos, devendo ser prorrogada por períodos iguais e sucessivos, sempre respeitando o disposto no art. 128 desta mesma lei.
Já, no que tange às Patentes, destaca-se a importância de sua invenção ser protegida, pois ela é fruto do seu trabalho, tempo e dinheiro nela investidos. Evita-se que terceiros utilizem de sua criação e aufiram lucros que lhe pertencem. A patente assegura e garante ao titular o direito de exclusividade durante o período legalmente previsto. Ressalta-se que é patenteável a invenção ou melhoria que atenda aos requisitos da novidade ou nova forma ou disposição, atividade inventiva ou ato inventivo e aplicação industrial, conforme prevêem os arts. 8º e 9º da Lei n.º 9.279/96, respectivamente.
O aviso-prévio tem como propósito a comunicação de uma parte à outra da intenção de rescindir o contrato de trabalho, sem justa causa, com a antecedência a que estiver obrigada por lei.
Em que pese a Constituição Federal preveja a ampliação do prazo ordinário de trinta dias, falta, para implementação prática da medida, que o Poder Legislativo exerça seu dever de regulamentação. Desde 1988, a questão dormita no Congresso Nacional.
Afrontando a ausência de compromisso político de se dar eficácia plena ao instituto, recentemente o plenário do Supremo Tribunal Federal suspendeu o julgamento de um Mandado de Injunção para aprofundar a discussão acerca da proporcionalidade a ser fixada para o aviso-prévio, em evidente sinal de inclinação à concretização deste direito fundamental.
Embora em um Mandado de Injunção se possa apenas decidir casos concretos na ausência de lei, os efeitos deste julgamento serão amplos, já que a Suprema Corte deverá disciplinar as práticas a serem seguidas pelas empresas até que as casas legislativas de Brasília regulamentem a matéria. Em razão disso, recentemente categorias representativas das indústrias, agricultura e comércio apresentaram projetos ao relator do caso, no sentido de apontar limites ao acréscimo de dias do aviso, assim como sugeriram que a nova regra não seja aplicada aos micros e pequenos empresários, por possuírem menor poder econômico.
Além das propostas das empresas, serão utilizadas, como embasamento aos votos a serem proferidos no STF, diversas resoluções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), projetos de leis em tramitação no Congresso Nacional, além do direito comparado. Alguns Ministros da mais alta Corte manifestaram-se por meio de sugestões como as de que, além dos trinta dias de aviso-prévio constitucionalmente previstos, sejam pagos adicionalmente outros 10 dias por ano de trabalho ou uma indenização igual a um salário mínimo para cada cinco anos de labor.
O amadurecimento da discussão gerará esperado significado social se ao menos resultar em solução próxima à recomendação da OIT de que o período do aviso-prévio seja “razoável”, equilibrando o direito do empregado e a sobrevivência do empregador e sua capacidade de gerar oportunidades.
* Pós-graduanda em Direito e Processo do Trabalho pela Rede de Ensino Luiz Flávio Gomes
Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas por Benôni Rossi
Em 8/7/2011 foi publicada a Lei nº 12.440 que inclui na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) o título VII-A e instituiu a Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas (CNDT), expedida gratuita e eletronicamente pela Justiça do Trabalho, para comprovar a inexistência de débitos trabalhistas inadimplidos.
A lei altera também a Lei nº 8.666/199 que trata das Licitações. A partir 7/12/2011, data em que entra em vigor a lei, passará a ser exigido a CNDT como parte da documentação comprobatória de regularidade fiscal e trabalhista das empresas interessadas em participar de licitações públicas e pleitear incentivos fiscais.
Empresas que possuem dívidas trabalhistas em execução e ainda não garantidas por penhora judicial não terão como participar de processos licitatórios.
A nova lei evidentemente busca diminuir o número de processos que tramitam e estão em fase de execução na Justiça do Trabalho. Evidentemente o projeto teve apoio do Tribunal Superior do Trabalho e dos Tribunais Regionais do Trabalho.
A grande preocupação é que a mudança pode acarretar prejuízos às empresas que pretendem participar de processos licitatórios e que estejam discutindo critérios de cálculos de liquidação. A abusividade em execuções que se discutem critérios de cálculos somente deixará de trazer malefícios ao empregador se este disponibilizar seu patrimônio para garantir a dívida enquanto recorre de eventual decisão de homologação de cálculos. Passa a ser mais um elemento que destaca a importância do acompanhamento detalhado dos processos trabalhistas na fase de execução.
As empresas que possuem ações perante o judiciário trabalhista acabarão tendo que fazer o depósito imediato após a homologação de cálculos e expedição do mandado de citação para pagamento, sob pena de eventuais atrasos no procedimento da penhora acarretar o impedimento na participação da licitação.
É importante destacar que não basta uma empresa ser ré/reclamada para que deixe de obter a CNDT. Somente após inadimplir obrigação trabalhista decorrente de decisão transitada em julgado ou de acordo homologado é que não terá êxito na obtenção da referida certidão. As execuções provisórias, ou seja, decorrentes de processos que aguardam julgamento de recurso, não podem ser causa de negativa da CNDT. As empresas que possuem dívidas garantidas por penhora também terão possibilidade de obter certidão positiva com efeitos de negativa.
* Mestre em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Não raro surgem, no momento de contratar, receios quanto aos efeitos do que se está a tratando. Há situações que exigem, mesmo como premissa para realização do negócio, garantia de que determinadas condições, ou mesmo de que a própria contratação, não sejam divulgadas.
São exemplos os pactos em que um dos contratantes transmite aos outros segredos comerciais ou industriais, fórmulas, receitas; ou em que, por motivos outros, não se mostra conveniente transitem externamente aos partícipes os valores envolvidos e/ou formas de pagamento e/ou de garantias etc.
O sistema legal brasileiro autoriza, no âmbito privado, que contratos das mais diversas espécies possam conter uma cláusula de sigilo ou de confidencialidade, mediante a qual fica estabelecida como obrigatória a manutenção do silêncio sobre o todo ou sobre alguma(s) previsão(ões).
Evidente que a regra, porque é apenas uma regra, não se mostra suficiente para assegurar o cumprimento da obrigação de abstenção. Como forma de coação lícita ao respeito a essa norma – e também às demais, importante ver estabelecida penalidade grave a incidir diante de possível desatendimento. E para tornar efetivo e real o contratado, se deve agregar garantias (fiança e hipoteca, entre outros) com amplitude suficiente para suporte da sanção referida e, ainda, de eventual reparação de danos financeiros e morais que possam advir da publicização inesperada.
O mesmo raciocínio se aplica quando pretendem os litigantes por fim à discussão que os reúne. Bastante comum na vida prática, diante da constatação de provável derrota em juízo, que uma das partes disponha-se a realizar pagamento indenizatório à outra, prática que geralmente não adota para não estimular o surgimento de novas ações contra si. Clausulando o acordo com a qualidade de confidencial e adotadas as sugestões acima, presevar-se-ão os interesses e serão evitadas surpresas preocupantes e largos prejuízos financeiros e de imagem.
* Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Redação atual da súmula 331 do TST: administração pública e responsabilidade subsidiária por Carolina Franciosi Tatsch
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) acrescentou mais um item - inciso V - na Súmula 331 que trata da terceirização de serviços ligado à atividade meio do tomador. O texto veio na esteira do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da Ação Direta de Constitucionalidade nº 16, que recentemente declarou a constitucionalidade do artigo 71, parágrafo 1º, da lei 8.666/93, mais conhecida como a Lei de Licitações.
Enquanto o STF encerrou a questão da ausência de responsabilidade do ente público na terceirização de serviços, o TST admitiu na seara das relações privadas, desde que o empregador tenha atuado com “conduta culposa”.
A inovação diz respeito à necessidade de mensuração da atuação do tomador de serviços, integrante da administração pública direta ou indireta, na exigência do cumprimento das obrigações contratuais e legais da prestadora de serviços, para atribuir-lhe ou não a responsabilização subsidiária.
Portanto, para o TST não basta apenas o mero inadimplemento das obrigações trabalhistas por parte do empregador para que haja a responsabilidade do Estado. Há que se perquirir, a partir de agora, sobre o elemento “culpa”.
A conduta culposa, diz o novo texto, decorrerá da ausência de fiscalização do cumprimento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa contratada, à luz do disposto na Lei 8.666/93.
A partir de agora, o Estado deixa de ser o segurador universal dos trabalhadores, exceto quando lhe faltar atenção que resulte em inadimplemento dos que lhes presta serviços.
Mais se explicita: para se habilitar a prestar serviços ao poder público, deve o prestador comprovar a idoneidade e o fiel cumprimento de suas obrigações legais, conforme preconiza a Lei das Licitações que imprime aos contratos públicos a lisura, a ética, a moralidade e a publicidade nas relações com os entes públicos. Dentro de tais conceitos, depois de habilitado no certame licitatório, o prestador contratado deverá executar o serviço com excelência, o que inclui arcar com suas obrigações legais enquanto empregador.
Remanescem, porém, dúvidas. E se o prestador não o fizer? Bastará a fiscalização mensal do cumprimento das obrigações trabalhistas pelo tomador, para eximir-lhe da culpa? Como atribuir a culpa à administração pública e como mensurar o seu grau?
Tudo a traduzir que não será fácil a tarefa atribuída ao Judiciário na busca de evidências acerca da falha na fiscalização do cumprimento da Lei 8.666/91, requisito para a atribuição de conduta culposa à administração pública.
Resta daí a conclusão de que longo e difícil poderá ser o caminho da responsabilização subsidiária do Estado quanto às verbas decorrentes de condenação judicial, em caso de inadimplemento do empregador.
* Pós-graduada em Direito do Trabalho pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas
A ausência da exigência de licenciamento ambiental pode nulificar todo o processo licitatório. Não raras vezes a Administração Pública instaura um procedimento licitatório sem uma avaliação completa de todos os aspectos, custos e viabilidade ambiental devidamente delineados no Projeto Básico da Licitação.
A ausência deste estudo poderá determinar que a outorga da licença ambiental somente seja efetivada após a implementação de uma série de condições ou restrições que por vezes alteram totalmente o projeto levado à licitação. Ou seja, não há como garantir que o cronograma original será respeitado nem de que a obra coincidirá com o projeto básico da obra licitada.
Por tal razão, é que dentre os requisitos que são examinados nos projetos básicos e projetos executivos de obras e serviços, referidos na Lei 8.666/93, expressamente exige estudo de impacto ambiental, regra decorrente do preceito constitucional referido no Art. 225, IV da Carta Magna.
A Lei 11.520/2000, que institui o Código Estadual do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul, traz ao ordenamento regra específica que nulifica a licitação para a realização de obras públicas para situações em que não há plena regularização perante os órgãos ambientais e ainda na dependência de licenciamento ambiental. A obra licenciada somente apresentará viabilidade ambiental com a liberação da Licença Prévia.
Em efeito, os princípios constitucionais que regem o processo licitatório devem se harmonizar com os princípios norteadores do direito ambiental, bem como com as normas que garantem a proteção ao meio ambiente, evitando-se que danos irreparáveis sejam desencadeados por condutas depredadoras desprovidas de licenças ambientais.
Conclui-se, portanto, que a ausência da exigência de licenciamento ambiental no certame licitatório não apresenta probidade administrativa, viabilizando a impugnação do instrumento convocatório, pela afronta o princípio da isonomia e demais princípios constitucionais norteadores do procedimento licitatório previstos na Lei 8.666/93.
* Advogado pós-graduado em Direito Previdenciário pela Escola da Magistratura Federal
Alteração da jurisprudência no entendimento da responsabilidade solidária do dono da obra por Tatiani Pereira Costa
TATIANI PEREIRA COSTA*
AGNA CARDOSO**
A questão da responsabilidade solidária do dono da obra no cumprimento das obrigações trabalhistas é ponto que durante muito tempo gerou divergência no entendimento dos Tribunais. Ainda que alguns julgadores entendessem que estaria excluído de qualquer responsabilidade o “dono da obra” que contratasse com um empreiteiro a execução de serviços totalmente alheios à sua atividade empresarial, outros compreendiam que, ainda assim, haveria responsabilidade frente ao descumprimento das obrigações assumidas pelo empreiteiro.
A responsabilidade solidária trabalhista representa, na realidade, o estabelecimento de um vínculo mínimo entre o tomador de serviços e o trabalhador empregado da empreiteira, efetiva empregadora. Atribui-se ao tomador de serviços, seja ele dono da obra que utiliza da empreiteira para construção de sua residência, por exemplo, seja ele empresa que tem como atividade principal a construção civil, a condição de garantidor do adimplemento dos créditos trabalhistas devidos pela empreiteira.
Ocorre que não há amparo legal para que a cobrança dos créditos trabalhistas seja realizada de forma solidária ou subsidiária em relação ao dono da obra. Considerando que o objeto econômico daquele que contratou os serviços da empreiteira não é a construção, inexistente qualquer vínculo entre esse e o empregado contratado através de empreiteiros.
Assim, a jurisprudência veio se firmando no sentido de que tal solidariedade é inexistente e, finalmente em 08/11/2000, o órgão Pleno aprovou a Orientação Jurisprudencial 191 da Seção Especializada em Dissídios Individuais – SDI-1 – do Tribunal Superior do Trabalho, uniformizando:
Dono da Obra. Responsabilidade. Diante da inexistência de previsão legal, o contrato de empreitada entre o dono da obra e o empreiteiro não enseja responsabilidade solidária ou subsidiária nas obrigações trabalhistas contraídas pelo empreiteiro, salvo sendo o dono da obra uma empresa construtora ou incorporadora.
A matéria restou sumulada, trazendo ao dono da obra a segurança do entendimento do Tribunal Superior do Trabalho (TST). No entanto, em 24/05/2011 a Corte Superior aprovou várias mudanças em sua jurisprudência sumulada e, dentre elas, alterou a redação da OJ 191 da SDI-1 do TST, determinando: CONTRATO DE EMPREITADA. DONO DA OBRA DE CONSTRUÇÃO CIVIL. RESPONSABILIDADE - Res. 175/2011, DEJT divulgado em 27, 30 e 31.05.2011
Diante da inexistência de previsão legal específica, o contrato de empreitada de construção civil entre o dono da obra e o empreiteiro não enseja responsabilidade solidária ou subsidiária nas obrigações trabalhistas contraídas pelo empreiteiro, salvo sendo o dono da obra uma empresa construtora ou incorporadora.
Para as empresas da construção civil a obra tem finalidade econômica; logo, existe a responsabilidade que pode ser solidária quando divide com a empreiteira o pagamento das verbas, ou subsidiária, em que responde pela dívida caso a empreiteira não o faça.
Uniformizar a jurisprudência e revisar periodicamente as súmulas e orientações jurisprudenciais é função essencial do TST. Os entendimentos lá pacificados influenciam diretamente nos julgamentos das instâncias inferiores, servindo como norte e eliminando dúvidas sobre o entendimento então consolidado.
* Advogada pós-graduada em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pelo Instituto de Desenvolvimento Cultural
**Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Segundo estatísticas da Previdência Social, os transtornos mentais ocupam a terceira posição entre as causas de concessão de benefícios previdenciários. Os transtornos mentais e de comportamento correspondem ao terceiro lugar entre os motivos de afastamento do trabalho.
Face essa realidade, é crescente o número de reclamatórias trabalhistas postulando o reconhecimento do nexo causal entre a moléstia desenvolvida – depressão - e as atividades executadas, com o conseqüente pagamento de indenizações por danos morais e materiais.
A moléstia “depressão” está na lista de doenças infecciosas e parasitárias relacionadas ao trabalho, no grupo da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) 10 – Episódios Depressivos (F 32), leve, moderado e grave. Consta do referido Anexo o reconhecimento da depressão como doença do trabalho no caso específico de vinculação do quadro depressivo à exposição ocupacional às substâncias tóxicas como brometo de metila, chumbo ou seus compostos tóxicos, manganês e seus compostos tóxicos, mercúrio e seus compostos tóxicos, sulfeto de carbono, tolueno e outros solventes aromáticos neuróxicos, tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloretano e outros solventes orgânicos neurotóxicos.
A lista de doenças ocupacionais da Previdência Social, constante do Anexo II do Decreto nº 3.048/99, indica o grupo dos chamados “transtornos mentais e do comportamento relacionados com o trabalho”, apontando como fatores dessas doenças problemas com o emprego e com o desemprego, condições difíceis de trabalho, ritmo de trabalho penoso, reação após acidente grave, reação após assalto no trabalho, desacordo com o patrão e colega de trabalho, circunstâncias relativas às condições de trabalho, má adaptação à organização do horário de trabalho, entre outros, (Grupo V do CID -10).
É necessária a realização de perícia médica para a verificação da existência do nexo causal entre a moléstia desenvolvida (depressão) e as atividades executadas em favor do empregador. Cabe destacar que muitas vezes o ambiente de trabalho não é fator determinante para a ocorrência de depressão, ainda mais que a origem da moléstia é multifatorial. Frisa-se, ainda, que é fator preponderante, para o desecadeamento de um quadro depressivo, a suscetibilidade do indivíduo. Demonstrada que seja a relação entre a depressão e as atividades executadas, poderá ela ser reconhecida como doença do trabalho, mesmo quando o fator patogênico não constar da relação da Previdência Social.
Se a depressão vinculada a uma relação de trabalho tiver como pressuposto a existência de dolo ou culpa do empregador, assim como a perda ou a redução da capacidade laborativa do empregado, poderá aquele ser condenado ao pagamento de indenização por danos morais e materiais.
Em exercício de síntese, devem os empreendedores permanentemente buscar “o bem-estar físico-psíquicosocial” dos seus empregados mediante ambiente de trabalho saudável e condições adequadas, tudo resultando na redução dos riscos de desenvolvimento e/ou de agravamento de quadro depressivo por parte de seus colaboradores.
* Advogada
Licenciamento ambiental e custo dos riscos do empreendimento por Rafael Da Cás Maffini
*Rafael Da Cás Maffini e Fabio Milman
O meio ambiente equilibrado é qualificado pela Constituição Federal como um direito de todos os cidadãos, que impõe ao Estado o dever de adotar todas as providências que estiverem ao seu alcance para assegurá-lo.
Afigura-se perceptível a evolução do direito ambiental, ramo do direito embasado nos mais modernos princípios, especialmente os da precaução (o qual impõe à Administração Pública o dever de adoção de medidas voltadas a evitar situações que, em um juízo de elevada plausibilidade, possam causar danos ao meio ambiente) e da prevenção (o qual impõe à Administração Pública o dever de adoção das medidas que estiverem ao seu alcance para remover danos iminentes).
Dentre os instrumentos de concretização da política nacional do meio ambiente, coloca-se em destacada posição o licenciamento ambiental, instituto que, em uma perspectiva ideal, condiciona ao prévio licenciamento estatal algumas atividades potencialmente nocivas.
Contudo, o mundo real tem se mostrado distante do ideal, sobretudo se considerado que o Estado não possui o aparelhamento necessário para que as solicitações de licenciamento sejam apreciadas em tempo razoável e minimamente seguro para a realização de determinados empreendimentos. Prova indesmentível disso é o conjunto de infelizes notícias dando conta que grandes investimentos que seriam aportados no Rio Grande do Sul mudaram seu rumo, dada da demora na apreciação, por parte dos órgãos ambientais estaduais, dos projetos, no mais das vezes, elogiáveis que são levados à sua análise.
Diante disso, coloca-se em nítido conflito o direito fundamental ao meio ambiente equilibrado com outros direitos fundamentais não menos relevantes, merecendo destaque o da boa administração pública que se deve mostrar eficiente, o que é assegurado em nosso país pela Constituição da República.
Não se pode fazer de tal princípio da eficiência – o qual impõe uma atividade administrativa que atenda de modo mais efetivo ao interesse público, com o menor dispêndio de recursos humanos, materiais, temporais – letra morta. É regra básica do direito constitucional não se poder atribuir às normas constitucionais interpretações que tornem suas palavras inúteis.
Imperioso, pois, que o Estado tenha condições de licenciar empreendimentos de modo razoável, racional e no tempo necessário para que sejam, na medida do possível, eliminadas as incertezas e inseguranças de determinado empreendimento, sob pena inclusive de ver-se compelido, seja pela adoção de medida administrativas ou judicial de responsabilização dos agentes ineficientes, seja pela responsabilização civil dos prejuízos gerados por sua postura ineficiente.
E não se diga que tal preocupação existe somente para a satisfação dos interesses privados dos empreendedores: tal alegação é absolutamente equivocada, eis que o desenvolvimento econômico-social é valor dotado de mesma estatura que merece, no texto constitucional, a proteção ao meio ambiente. Ainda algumas observações se fazem necessárias. As licenças ambientais, somente concedidas mediante prévio preenchimento de grande número de requisitos, consubstanciam, por evidente, atos administrativos que, segundo as normas jurídicas brasileiras, podem, em alguns casos, ser revistos pelos órgãos que as tenham outorgado e questionadas judicialmente. Resumindo, as licenças ambientais não têm força absoluta, representando uma autorização sem a qual não se implementa o empreendimento, todavia não bastando elas para evitarem eventuais futuros dissabores. Respondendo quanto a quem possa provocar essa espécie de debate, informa-se que a Constituição Federal dá poderes ao Ministério Público e a quase uma dezena de outras instituições - sindicatos, partidos políticos, associações civis, entre outras - para promover medidas visando à discussão da validade ou não, total ou parcial, de licenças ambientais.
São incomensuráveis os prejuízos a que se sujeitam os empreendimentos se lhes for imposta alguma medida judicial que suspenda os efeitos de licença ambiental que, cumprindo toda a trajetória da legalidade e boa técnica, foi obtida. Ainda que ao final do processo receba a empresa decisão favorável, terá ele, nesse longo e imprevisível tempo de tramitação do processo, danos irreparáveis junto ao mercado (não cumprimento de prazos), à opinião pública (credibilidade e fama – injusta – de agressor ao meio ambiente) e em suas finanças.
Como prevenir esse tortuoso roteiro? A recomendação é de que o empreendedor se faça cercar de qualificado e sério corpo técnico que o auxilie tanto da fase de projetos e de licenciamento ambientais como, também, ao longo das obras e mesmo depois de sua conclusão. E que, igualmente, haja atento acompanhamento jurídico desde o nascedouro da idéia a ser desenvolvia, parceria está que estenderá seus efeitos contribuindo para a necessária harmonia que assegure o direito comum a um meio ambiente saudável e economicamente sustentável.
A gravação telefônica como meio de prova no processo do trabalho é tema sempre instigante. É comum questionamento sobre em que situações são consideradas provas lícitas as gravações telefônicas no processo trabalhista.
É reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal, pelo Superior Tribunal de Justiça, bem como pelo Tribunal Superior do Trabalho, a validade probatória de diálogo gravado, respeitadas determinadas condições. A primeira delas é de que ao menos um dos interlocutores tenha conhecimento do registro que está sendo feito.
Também é requisito para uso da espécie probatória que, no conteúdo da mesma, não esteja presente violação à privacidade e à intimidade dos interlocutores. O contrário representaria afronta ao texto constitucional, diretamente atingindo direitos de personalidade consagrados no art. 5º, LVI, da Carta Magna e, também, o disposto no art. 332 do Código de Processo Civil.
De outra forma, no caso de a gravação da conversa ter ocorrido com o consentimento recíproco, livre e espontâneo, por evidente na formação da prova não estará presente ofensa ao direito à intimidade e à privacidade, porque as pessoas podem abrir mão de sua liberdade e possibilitar a divulgação de seus pensamentos.
Em qualquer dos casos, sobrevindo dúvida sobre a ocorrência ou não de edição e/ou adulteração na gravação, o registro sonoro deverá ser avaliado por meio de prova pericial que confirmará, ou não, sua idoneidade.
Ao cabo, a coleta de diálogos telefônicos privados, quando executada com total desconhecimento de ao menos um dos seus partícipes, afora hipótese de ordem judicial, apresenta-se eivada de absoluta desvalia.
*Advogadas
A condenação judicial e os juros: o espantoso valor final a ser pago por Fabio Milman
As décadas de alta inflação no Brasil, que antecederam à estabilização de preços - fenômeno verificado a partir metade dos anos noventa-, geraram a cultura segundo a qual o adiamento dos pagamentos de condenações judiciais mostrava-se um grande negócio. Com efeito, a dupla “correção monetária + juros”, uma vez somados e desembolsados, implicava em quantias inferiores as que se obtinha em aplicações financeiras, especialmente, overnight e suas variantes.
Resumindo, deixar dinheiro parado em banco para futuro uso no cumprimento de obrigações judiciais gerava lucro, dado que o desembolso resultava inferior ao que separado para futuro pagamento da condenação e investido no mercado financeiro.
Controlada a inflação com sua paulatina – mas contínua e perseverante – redução, novos cálculos se fazem necessários, especialmente, a partir da entrada em vigor do atual Código Civil que dobrou, de 6% para 12% ao ano, a tarifa de juros aplicáveis aos montantes condenatórios. Passa-se a demonstrar o tamanho do problema advindo dessas circunstâncias.
É regra pacífica criada pelos Tribunais, incluindo-se aqui o estadual gaúcho, que a descoberta da quantia a ser paga no tocante a condenações em valores certos, em casos de indenização, obedece à seguinte fórmula: “correção monetária pelo IGPM desde o dia do desembolso ou da apuração, em se tratando de danos materiais” + “correção monetária pelo IGPM a contar da data da fixação da reparação de danos morais” + “juros de 6% ao ano até a entrada em vigor do atual Código Civil e/ou juros de 12% ao ano a partir da entrada em vigor do atual Código Civil, computados a partir do fato gerador da ação” + “reembolso das custas processuais, atualizadas pelos mesmos critérios acima enumerados” + “verba honorária entre 10% e 20% sobre o todo apurado, descontadas as custas” e, se não houver pagamento em quinze dias da intimação do trânsito em julgado, + “10% de multa” + “nova verba de honorários”.
O uso de números facilita a compreensão. Adota-se o exemplo do lançamento equivocado do nome de uma pessoal em cadastros como SERASA e/ou SPC, no dia 03 de abril de 2004. A ação de indenização por danos morais foi distribuída em setembro de 2004 e, em 04 de junho de 2010, foi sentenciada com a condenação do réu ao pagamento de R$ 10.000,00. Superados os recursos, em março deste corrente ano de 2011 chega o momento da apuração da quantia a ser alcançada ao vitorioso.
Pois bem, levando em consideração: (a) os R$ 10.000,00 da condenação; (b) a correção monetária pelo IGPM desde a data do arbitramento do valor da indenização – junho de 2010, apontando R$ 706,42; (c) a incidência de juros de 1% ao mês desde o evento danoso – qual seja, a inscrição indevida em 03 de abril de 2004, apontando R$ 8.779,26 e (d) verba honorária mínima de 10% sobre o todo, é encontrado como valor devido R$ 21.434,24, mais que o dobro dos R$ 10.000,00 arbitrados faz menos de um ano. Isso que nesse exercício não foram consideradas as custas a serem reembolsadas, nem a multa pelo atraso no pagamento e nem a segunda verba honorária pela fase de cumprimento compulsório da sentença. Não há, na atualidade nacional, operação financeira com razoável grau de segurança apta a valorizar o dinheiro aplicado na mesma proporção do desenvolvimento da dívida judicial.
Talvez maior perplexidade resulte na constatação de que mesmos os depósitos judiciais, aqueles feitos junto a processos que estejam em tramitação, recebem a mesma valorização da contagem da condenação. Vale referir: feito o depósito judicial e havendo seguimento do processo, na data em que o autor receber a quantia depositada será ele, ainda, credor das diferenças entre o que estava no banco oficial e a evolução do valor da condenação pelo modelo acima reproduzido.
Nossa orientação, portanto, é que na rotina das empresas demandadas ante o Poder Judiciário seja agregada ao exame dos riscos de cada processo a prática da reserva de valores com suficiência (o total nominal estimado no caso de derrota + porcentagem a maior conforme previsão média do tempo de tramitação do processo) para honrar, sem desorganização de caixa, débitos aos quais condenadas, em quinze dias de sua intimação, na pessoa do advogado, do trânsito em julgado. Tudo a mostrar que a esperada administração do passivo judicial exige interligação constante entre direção, departamento jurídico e/ou escritório de advocacia eleito para a melhor defesa do empreendedor.
Os estabelecimentos de qualquer natureza, cujas funções demandem formação profissional, são obrigados a empregar e matricular nos cursos dos Serviços Nacionais de Aprendizagem número de aprendizes de no mínimo 5% e no máximo 15% dos trabalhadores existentes. Excetuam-se a tal exigência legal as microempresas, as empresas de pequeno porte e as inscritas no Simples.
Com tal determinação, o legislador passou a disciplinar o “contrato de aprendizagem”, modalidade especial de contrato de trabalho. O artigo 428 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) considera de aprendizagem o contrato celebrado por escrito e com prazo determinado, de no máximo dois anos, por meio do qual o empregador se compromete a assegurar ao maior de 14 e menor de 24 anos a execução de tarefas técnico-profissionais necessárias à sua formação e compatíveis com seu desenvolvimento físico, moral e psicológico. O aprendiz, por sua vez, compromete-se a executar, com zelo e diligência, as tarefas necessárias a essa formação.
Como requisitos essenciais de validade do contrato, o empregado aprendiz deve estar inscrito em programa de aprendizagem desenvolvido sob orientação de entidade qualificada em formação técnico-profissional metódica (SESC, SENAI, etc.), apresentar matricula e freqüência em escola, caso não tenha concluído o ensino médio, e ter a condição de trabalhador aprendiz anotado em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS).
A duração de trabalho dos aprendizes não excederá de 6 horas diárias, podendo chegar ao limite de 8 horas para aqueles que já tenham completado o ensino fundamental, sendo vedada a prorrogação ou a compensação de horário e também o trabalho noturno aos menores de 18 anos. Sua remuneração será o salário mínimo hora, salvo condição mais favorável prevista em acordo ou convenção coletiva de trabalho, e lhe é assegurado o depósito de FGTS, com alíquota de dois por cento.
Cumpre-se, por fim, ressalvar que os aprendizes portadores de deficiência têm tratamento especial, haja vista que os contratos de aprendizagem com eles firmados não se limitam ao prazo máximo de dois anos e à idade máxima de 24 anos. Ainda, a comprovação da escolaridade do aprendiz portador de deficiência mental deve considerar, sobretudo, as habilidades e as competências relacionadas com a profissionalização.
Dessa forma, é necessário que os estabelecimentos que demandem formação profissional observem as condições especiais destinadas ao contrato de aprendizagem, evitando, assim, a incidência de multas previstas na legislação trabalhista.
Recentemente, o Tribunal Superior do Trabalho, em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho da 17ª Região – Espírito Santo decidiu que é permitida a filmagem de empregado, em seu local de labor, desde que ele tenha ciência de que está sendo captada sua imagem.
A questão ainda é bastante polêmica e está longe de pacificação, tendo em vista que a Constituição Federal garante como um dos principais direitos individuais, a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.
A referida demanda visava declaração da existência de dano moral coletivo ocasionado pela filmagem – ainda que ocorrida sem a gravação de áudio – dos empregados de empresa de comunicação, em seus respectivos locais de trabalho.
O TST, ao julgar o recurso interposto pelo Ministério Público, estabeleceu que, desde que haja conhecimento pelo empregado, é regular o uso pelo empregador de sistema de monitoramento, ficando excluídos da filmagem banheiros e refeitórios. A solução encontrada pelo Tribunal busca resguardar o direito do empregador a proteger o seu patrimônio, sem interferir no direito à imagem e à intimidade, que é assegurado ao empregado pela Constituição.
O art. 193 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) classifica como atividades ou operações perigosas as que “por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem o contato permanente com inflamáveis ou explosivos em condições de risco”.
Tendo por base o art. 200, inciso VI, também da CLT, compete ao Ministério do Trabalho (MTb) a edição de normas sobre “proteção do trabalhador exposto a substâncias químicas nocivas, radiações ionizantes e não-ionizantes, ruídos, vibrações e trepidações ou pressões anormais ao ambiente de trabalho, com especificação das medidas cabíveis para eliminação ou atenuação desses efeitos, limites máximos quanto ao tempo de exposição, à intensidade da ação ou de seus efeitos sobre o organismo do trabalhador”, dentre outras providências.
A exposição às radiações ionizantes ou substâncias radioativas foi considerada, inicialmente, foi catalogada como componentes de atividades de risco potencial, conforme a Portaria nº 3.393 de dezembro de 1987. Em dezembro de 2002, contudo, o MTb baixou nova norma, a Portaria nº 496, prevendo o adicional de insalubridade. Uma terceira alteração sobreveio e restabeleceu a diretriz inicial, assegurando com a Portaria nº 518 (07.04.2003), a percepção do adicional de periculosidade.
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) pacificou a matéria com a edição da Orientação Jurisprudencial (OJ) nº 345, abaixo transcrita:
“A exposição do empregado à radiação ionizante ou a substância radioativa enseja a percepção do adicional de periculosidade, pois a regulamentação ministerial, mediante Portaria que inseriu a atividade como perigosa, reveste-se de plena eficácia, porquanto expedida por força de delegação legislativa contida no art. 200, caput, VI, da CLT. No período de 12.12.2002 a 06.04.2003, enquanto vigeu a Portaria nº 496, do Ministério do Trabalho, o empregado faz jus ao adicional de insalubridade”.
O entendimento do Tribunal Superior do Trabalho é o de que a regulamentação do Ministério do Trabalho, por meio da Portaria que inseriu a atividade como perigosa, reveste-se de plena eficácia, visto que foi expedida por força de delegação legislativa contida no artigo 200 da Consolidação das Leis do Trabalho.
Assim, o trabalhador submetido a radiações ionizantes ou a substâncias radioativas tem direito à percepção do adicional de periculosidade, na forma preconizada na Orientação Jurisprudencial nº 345 da SDI – I, do TST.
Atualmente tramita na Justiça do Trabalho grande número de reclamatórias trabalhistas envolvendo assédio sexual. O Código Penal Brasileiro, que prevê uma pena de detenção de um até dois anos para quem pratica esse crime, conceitua assédio sexual como o ato de "constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício do emprego, cargo ou função".
A Organização Internacional do Trabalho define assédio sexual como "atos, insinuações, contatos físicos forçados, convites impertinentes, desde que apresentem uma das características a seguir: a) ser uma condição clara para manter o emprego; b) influir nas promoções da carreira do assediado; c) prejudicar o rendimento profissional, humilhar, insultar ou intimidar a vítima".
Pelas definições apresentadas, o assédio sexual se caracteriza quando parte de um superior para um subordinado. Ele pode partir tanto de um homem em relação a uma mulher, como vice-versa, ou até entre pessoas do mesmo sexo.
Na Justiça do Trabalho, as ações que envolvem esse tema têm como objeto, em sua maioria, pedidos de indenização por danos morais por parte das vítimas. Há também pedidos de rescisão indireta do contrato de emprego das vítimas. Por fim, há processos envolvendo demissão por justa causa dos empregados que praticam a conduta contra seus subordinados. As empresas devem prevenir possíveis casos de assédio sexual, pois se trata de uma conduta que pode gerar eventual responsabilidade civil, passível de indenização por danos morais, tanto em relação ao praticante do assédio, quanto em relação ao empregador. Elas podem adotar políticas para evitar o assédio sexual, informando a seus empregados sobre a gravidade das conseqüências.
Importante que se observe que as abordagens entre pessoas do nível hierárquico ou que partem de alguém inferior não se enquadram no caso de assédio. Como se trata de uma questão delicada, a Justiça tem tomado cuidado para evitar que a acusação de assédio sexual seja utilizada de má-fé ou de forma indevida. Os casos que resultam em condenação são instruídos com provas concretas, como bilhetes e gravações obtidas legalmente.
Uma das hipóteses de demissão por justa causa é a desídia do empregado no desempenho das suas funções, prevista na alínea “e” do artigo 482 da Consolidação das Leis do Trabalho. A espécie pode ser conceituada como um descumprimento do empregado de suas obrigações contratuais, geralmente de cunho leve, agravando-se pela repetição ou reiteração das faltas.
No conceito de Délio Maranhão, "uma das obrigações específicas que resultam para o empregado do contrato de trabalho é a de dar, no cumprimento da sua prestação, o rendimento quantitativo e qualitativo que o empregador pode, normalmente, esperar de uma execução de boa-fé. A desídia é a violação dessa obrigação". (in "Instituições de Direito do Trabalho", Arnaldo Süssekind, Délio Maranhão e Segadas Vianna, 13ª ed., Vol 1, Ed. LTr, p. 551). Agrega o mesmo doutrinador que "a desídia, comumente, é revelada através de uma série de atos, como, por exemplo, constantes faltas ao serviço ou chegadas com atraso" (in "Instituições de Direito do Trabalho", vol. 1, 14ª edição, pg. 553).
Alguns exemplos que podem caracterizar a desídia são: os atrasos e as faltas freqüentes e injustificadas ao trabalho; a redução, sem motivo, da produtividade e da qualidade do trabalho; e o desinteresse ou descaso pelas suas funções.
A medida a ser adotada pelo empregador, nesses casos, é a aplicação de advertências (verbais e escritas) e de suspensões – sempre de maneira proporcional, gradativa e de forma imediata à falta cometida. Aplicam-se, primeiramente, as advertências; depois, as suspensões; e, por fim, se o comportamento desidioso continuar, poderá atuar a penalidade da demissão por justa causa.
Importante atentar para o princípio da proporcionalidade e da atualidade. A punição deverá ser proporcional ao ato praticado pelo colaborador e ser aplicada logo após apuração da falta cometida, sob pena de ser considerada perdoada, não podendo mais ser motivo de sanção. É o que se costuma caracterizar como perdão tácito.
Acima se fez referência à reiteração de conduta desidiosa como razão para atribuição de castigos sucessivamente graduados. Contudo, há casos em que até mesmo uma única falta, desde que muito grave, pode ensejar o desligamento por desídia – como o exemplo de um vigilante que abandona posto de trabalho, sem justificativa, dando margem para o furto de um automóvel da frota da empresa. Nesse sentido decidiu o Tribunal Regional do Trabalho da 14ª Região, conforme ementa a seguir transcrita:
JUSTA CAUSA. DESÍDIA. VIGILANTE. Deve ser mantida a sentença de primeiro grau que reconhece a demissão por justa causa, caracterizada pela desídia do empregado (vigilante) que deixa de fazer ronda e se recolhe após às 23h, dando margem a furto de bens no local que deveria estar zelando. Recurso improvido. (TRT 14ª R. – processo nº 00832.2006.001.14.00-0 – Relª ELANA CARDOSO LOPES LEIVA DE FARIA – DJ 25.08.2008 - in site TRT14.gov.br).
Por fim, cumpre ao empregador estabelecer e fiscalizar rotinas de labor de seu quadro de funcionários, instalando neles a cultura da atenção estrita às suas obrigações. Se o contrário prevalecer e estiver caracterizada a desídia, as vias de punição deverão ser utilizadas com equilíbrio e firmeza.
*Advogada
Empréstimos dos empregados e desconto em folha por Benôni Rossi
Os empregados podem autorizar, de forma irrevogável e irretratável, o desconto no contracheque de valores referentes ao pagamento de empréstimos e financiamentos. O referido desconto também pode incidir sobre verbas rescisórias devidas pelo empregador, desde que esteja previsto no respectivo contrato de empréstimo ou financiamento, até o limite de 30% do valor das rescisórias.
Deve o empregador observar tal limitação, bem como outras estabelecidas na Lei 0.820, de 17 de dezembro de 2003, para que não seja posteriormente responsabilizado por descontos que ultrapassem os limites legais. O empregador também terá a obrigação de prestar ao empregado e à instituição as informações necessárias para a contratação da operação de crédito, assim como terá que efetuar os descontos autorizados pelo empregado em folha de pagamento e repassar o valor à instituição consignatária na forma e no prazo previstos em regulamento.
Não pode a empresa impor ao empregado ou à instituição financeira qualquer condição que não esteja prevista na Lei 10.820 para a efetivação do contrato e a implementação dos descontos autorizados. As condições do empréstimo serão objeto de livre negociação entre a instituição financeira e o empregado. Pode a empresa, com a anuência da entidade sindical representativa da maioria dos empregados, ajustar com bancos condições gerais e demais critérios a serem observados nos empréstimos aos empregados. Também podem os próprios sindicatos, sem ônus para os empregados, ajustar com os bancos acordo que defina condições gerais e demais critérios a serem observados nos empréstimos que venham a ser realizados com seus representados.
Não é permitida aos empregadores ou às entidades sindicais a cobrança de qualquer taxa ou exigência de contrapartida pela celebração ou pela anuência nos acordos com os bancos. O empregador será o responsável pelas informações prestadas, pela retenção e repasse dos valores de sua remuneração mensal ao empregado, o qual deverá ser realizado até o 5° dia útil após a data de pagamento. Observando as limitações impostas na lei, não tem o empregador qualquer responsabilidade sobre o pagamento dos valores que o empregado tira de empréstimo, assim como não tem impedimento para a realização dos descontos.
A nossa legislação prevê no art. 461 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que sendo idêntica a função, deve o empregador pagar igual salário aos seus empregados, desde o trabalho seja de mesmo valor e prestado na mesma localidade. O critério de “valor” é de difícil distinção quando o trabalho é o mesmo. Não há razão lógica para que o trabalho do empregado A tenha mais valor, que o do empregado B, se ambos executam exatamente as mesmas atividades.
A legislação prevê diferenciação para empregados que executam suas atividades com maior produtividade e perfeição técnica, conforme as disposições do § 1º do art. 461 da CLT. No caso da indústria gráfica há diversas funções em que é plenamente possível fazer a diferenciação. Um montador pode executar atividades com maior qualidade e com maior produtividade que outro.
Quando há ações judiciais, até mesmo por perícia se pode constatar a diferença de qualidade e produtividade, dando aos dois empregados de forma simultânea trabalhos idênticos. O perito registra o tempo e perfeição técnica do trabalho, levando as informações ao juiz para apreciação de eventual pedido de equiparação.
A diferenciação se torna mais complicada, mas não impossível, quando o processo de trabalho não depende de habilidades manuais, mas sim de operação de máquinas. Outra possibilidade de empregados terem salários distintos é quando o que recebe mais tem mais de dois anos no exercício da função em relação ao que recebe menos. Cabe ressaltar que o critério é de exercício de atividade e não tempo de empresa. Se a empresa tem um empregado antigo que recém assumiu uma função, terá que pagar aos novos empregados o mesmo salário se todos executam as mesmas atividades.
Por fim, as disposições da CLT que estabelecem critérios de equiparação não se aplicam às empresas que possuem pessoal organizado em quadro de carreira. Na indústria gráfica são raras as empresas que possuem quadro de carreira, com critérios de promoção mediante o preenchimento de condições como merecimento e antigüidade. Tais quadros normalmente são adotados em empresas estatais e necessitam de registro no Ministério do Trabalho e Emprego. Cabe esclarecer que quadro de carreira não se equivale à descrição interna de cargos.
Se forem observadas essas considerações a respeito do tema “equiparação salarial”, penso que as empresas estarão resguardadas na prevenção do passivo trabalhista das suas relações de emprego.
Não é de hoje que o fenômeno da violência moral no trabalho é observado. Pode-se dizer que ela é tão antiga quanto o próprio labor. Esse fenômeno está presente no cenário mundial e não apenas nos países subdesenvolvidos muito embora nesses, pelo fato da menor divulgação e esclarecimentos sobre o assunto, tenda a ocorrer mais intensamente.
Foi um sábio rei da antiga nação de Israel, Salomão, quem constatou que “homem tem dominado homem para seu prejuízo”. No entanto, é na sociedade atual que o assédio moral revela-se como um fenômeno típico da era da globalização.
Em síntese, o assédio moral é o processo de exposição repetitiva e prolongada do trabalhador a condições humilhantes e degradantes e a um tratamento hostil no ambiente de trabalho, debilitando sua saúde física e mental, além de arranhar sua imagem no mercado e na comunidade em que vive, dificultando a convivência social e familiar e as suas relações com outras pessoas.
Trata-se de uma guerra de nervos que conduz a vítima ao chamado “assassinato psíquico”. Ato ilícito que provoca sem espaço para dúvida, dano moral suscetível de reparação pecuniária porque atinge diretamente a honra e a dignidade.
O assédio moral pode também acarretar danos materiais decorrentes, por exemplo, da perda do emprego, gastos com tratamentos médicos e psicológicos. É grande o preço a ser pago pela empresa que for conivente com o agressor, seja por consentir com a violência existente em seu ambiente laboral, seja por ignorá-la.
Quando o assédio é recente, há possibilidade de reação. Os sintomas, no início, são parecidos como os do estresse, ou seja, cansaço, nervosismo, distúrbios do sono, enxaquecas, incômodos digestivos (gástricos e ulceras), danos ao sistema respiratório (falta de ar e sensação de sufocamento), dores na coluna e nas articulações e músculos, sudorização, tremores, ânsia, ataques de pânico etc. Nesse estágio, a pessoa pode se recuperar com alguma facilidade se for afastada do agente agressor ou se este – o que não é comum – desculpar-se perante a vítima.
As mulheres estão mais sujeitas a crises de choro, a palpitações, tremores, falta de apetite, enquanto que os homens têm sede de vingança, idéia e tentativa de suicídio. A depressão, a insônia, a sonolência durante o dia e a dor de cabeça encontram-se presentes em ambos os sexos, mais ou menos na mesma proporção.
O silêncio, o medo que as vítimas têm de reagir às agressões e a inércia dos superiores são fatores que podem agravar o quadro, a ponto de o assédio moral ser tratado como um fator de risco equiparado à doença, a acidente do trabalho, conforme previsão legal.
O assédio moral pode gerar a rescisão indireta do contrato de trabalho; pode autorizar, também, o empregador a dispensar por justa causa os colegas da vítima, chefes, gerentes e diretores, enfim, do responsável, seja ele qual for, pelo ato ilícito ou abusivo.
O cumprimento, pelo empregador, de sentença que o tenha condenado a reparar pecuniariamente o lesado pelo assédio moral trará consigo prejuízos de natureza econômica, mostrando que a prática não é um bom negócio, afetando também os custos operacionais das empresas com a baixa produtividade daí advinda, falta de motivação e de concentração que aumentam os erros no serviço.
Admitindo-se o assédio moral como acidente de trabalho, mesmo que por equiparação, além de ser garantido à vítima do assédio moral o direito às prestações previdenciárias e a ação acidentária contra o INSS, haverá o empregado de manter o direito de intentar ação contra o empregador na qual deverá ser provado o dolo ou a culpa deste, de seu subordinado ou preposto, cuja responsabilidade independe daquela do Estado em destinar o seguro obrigatório.
No âmbito da relação de emprego, o ato ilícito lesivo à moral ou patrimônio material da vítima igualmente implica na responsabilidade civil da qual decorre o dever de indenizar o mal causado pela conduta antijurídica. A indenização tem a finalidade de, por um lado, compensar a vítima pelo dano moral decorrente e, por outro, punir o infrator.
Dentre tantas, são formas de configuração do assédio moral que devem ser evitadas no âmbito do trabalho: (I) medida destinada a excluir uma pessoa de uma atividade profissional, (II) ataques persistentes e negativos ao rendimento pessoal ou profissional sem razão, (III) a manipulação da reputação pessoal ou profissional de uma pessoa através de rumores e ridicularizarão, (IV) o abuso de poder por meio do menosprezo persistente do trabalho da pessoa ou a fixação de objetivos com prazos inatingíveis ou pouco razoáveis ou a atribuição de tarefas impossíveis, (V) o controle desmedido ou inapropriado do rendimento de uma pessoa.
É dever de todos os membros da empresa, portanto, a adoção das medidas necessárias ao efetivo respeito interpessoal, concretizando-as pela adoção de medidas preventivas e repressoras.
Embora o assédio moral esteja atrelado às relações sociais desde o início da civilização, somente recentemente vem sendo objeto de estudo, especialmente porque tem se mostrado cada vez mais um fenômeno freqüente, gerando conflitos e degradação da convivência no ambiente de trabalho.
O assédio moral nas relações de trabalho, especialmente aquele que se dá quando a empresa está estruturada com base na subordinação jurídica do empregado ao empregador, naturalmente ocasiona situações de conflito e tensão decorrentes das contínuas exigências profissionais. Nada obstante estas cobranças causem descontentamento ao trabalhador, notadamente quando se dão no seio da vinculo empregatício, não se mostram revestidas de efetiva intenção de atingir ou molestar psicologicamente àquele.
Nesse contexto, outro elemento que diferencia o assédio moral das vicissitudes normais do dia-a-dia está na identificação da repetição da conduta lesiva direcionada a pessoa do empregado. Situações imprevisíveis e isoladas, provocadas por desentendimentos circunstanciais/pontuais, não se inserem na caracterização do assédio.
Para os administradores e gestores de pessoas, é de especial importância a correta leitura de falsas queixas, atentando para condutas variadas que efetivamente possam influenciar no ambiente de trabalho, provocando efeitos destrutivos na personalidade do trabalhador.
Vale esclarecer que o assédio moral, não necessariamente, tem que partir do superior hierárquico em relação ao subordinado: também pode ocorrer entre colegas de mesmo nível na estrutura organizacional e, ainda, partindo dos próprios subordinados em face de seu superior.
Desse modo, atualmente é relevante que o empregador disponha de gestores qualificados, com conhecimento suficiente para identificar a intencionalidade das ações, assim diagnosticando os reais casos de assédio moral, evitando que possam estar sendo levados a efeito em qualquer das esferas organizacionais da empresa.
Os elementos que invariavelmente caracterizam as ofensas à dignidade do trabalhador são: repetição de condutas inconvenientes, intenção do agente em produzir dano, condutas e comportamentos abusivos, exploração das fragilidades e desvalorização do trabalhador.
Essas condutas normalmente se originam em um agente agressor que está munido de inveja, inflexibilidade diante de diferenças, medo/insegurança e inabilidade para se relacionar, dentre outras características psicológicas clinicamente identificáveis.
O assédio moral é um processo contínuo de ataques que possuem a finalidade de lentamente destruir a dignidade do trabalhador por meio de uma coação social que pode se instalar em qualquer grau de hierarquia. Por isso, as empresas devem manter-se sempre atentas e preparadas para proteger o ambiente de trabalho, evitando situações que estimulem o surgimento de agressores, também identificando as vítimas potenciais.
Somente por meio de capacitação e esclarecimento dos gerentes/gestores que irão dirigir o trabalho das pessoas na empresa, bem como dos próprios empregadores que irão elegê-los, é possível se obter uma rede capaz de filtrar – ou mesmo blindar – o ambiente de trabalho contra a ocorrência do assédio moral, coibindo os distúrbios no ambiente laboral que, invariavelmente, ocasionam prejuízos no processo produtivo.
Cabe por fim destacar que o assédio moral é objeto constante de demandas apresentadas à Justiça do Trabalho e, mesmo que sob enfoque de contingenciamento econômico, imprescindível ao empreendedor dedicar cuidado ao tema dado que a tendência atual é de cada vez sejam mais expressivas as indenizações decorrentes de seu reconhecimento. Daí porque forçoso reconhecer a necessidade de maior aprofundamento do estudo desse fenômeno social que recebe, mais e mais, atuação repressiva do Poder Judiciário, pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pelo Ministério Público do Trabalho.
No debate dos candidatos à Presidência da República no dia 30 de setembro, promovido pela TV Globo, o primeiro tema sorteado foi “legislação trabalhista”. Na oportunidade, Marina Silva questionou Dilma Rousseff sobre como resolver a informalidade no mercado de trabalho. O debate está disponível no Youtube, pelo endereço eletrônico: http://www.youtube.com/watch?v=dMVCnIg3J38&feature=related.
A revista Veja que pode ser acessada no portal, www.veja.com.br, promoveu uma enquete para saber qual o tema mais importante do primeiro bloco desse debate. O resultado foi a) Impostos 51.0%, 392 votos; b) Previdência 22.0%, 169 votos; c) Funcionalismo público, 16.0%, 121 votos e d) Legislação trabalhista 11.0%, 85 votos.
A resposta apresentada pela candidata Dilma Rousseff abordou temas como a expansão do mercado de trabalho, a abertura de crédito e o enfrentamento à crise pelo governo Lula. Marina Silva fez proposições genéricas, sem abordar com profundidade as possíveis soluções ao problema. Mas qual seria a resposta correta? Por qual motivo existe informalidade no nosso País? Todos os candidatos sabem exatamente qual seria a resposta correta, mas parece não estarem preparados para abordarem o tema. É evidente que a informalidade somente existe pela alta carga tributária sobre a folha de salários.
Em artigo publicado no Jornal da Tarde, em 09/02/2004, o economista José Pastore demonstra que o custo total do trabalho, considerando salários, férias, feriados, repouso semanal, tributos, entre outros, chega a 102% sobre o valor do salário. Não se pretende aqui discutir se o percentual indicado pelo economista está correto ou não, mas sim destacar um problema do qual os candidatos passam ao largo: a necessidade de se desonerar a folha de salário, que em regra é utilizada como base de cálculo de impostos e contribuições sociais. O percentual pago pelas empresas de INSS, o Seguro Acidente do Trabalho, entre outros valores que beneficiam a União, são elementos reais que dão origem à informalidade. Esse é o grande problema e não outro. Dos 102%, aproximadamente 40% são revertidos ao governo.
Os três temas debatidos no primeiro bloco do debate no primeiro turno no final de setembro estão interligados. Para reduzir a informalidade há necessidade de desvincular a apuração de tributos da folha de salário dos empregados. Tal medida evidentemente exige uma reforma tributária e afeta diretamente a previdência social, que já não tem recursos para o pagamento de suas obrigações.
Nenhum dos candidatos abordou essa linha de solução, ainda que para justificar a impossibilidade de adotá-la. É uma pena que não tenhamos nenhum candidato com idéias e propostas capazes de enfrentar o problema de forma eficaz. Talvez os candidatos não tenham dado essa resposta, pois acabariam expostos no debate. O problema é de difícil solução. Mas o principal é que se saiba qual o efetivo causador da informalidade.
A partir da identificação do problema, cabe aos candidatos a gestores públicos apresentarem propostas para convencerem os eleitores. É importante lembrar, qualquer que seja a possível solução, que não pode haver supressão ou redução dos direitos adquiridos dos empregados ou segurados. Isso não é permitido por nossa Constituição Federal. Trata-se, portanto, de uma árdua tarefa, que muito provavelmente os candidatos nem mesmo saibam como realizar.
*Advogado trabalhista
O empresário e os 20 anos do Código de Defesa do Consumidor por Fabio Milman
O ano de 2010 marca duas décadas da existência do Código de Defesa do Consumidor (CDC) cuja motivação histórica era a da busca de equilíbrio nas relações entre fornecedores e prestadores de serviços com os consumidores.
Nesse período, o Poder Judiciário oscilou na interpretação e aplicação das normas protetivas. Tomando como exemplo as indenizações por danos morais, o início da década de noventa foi pautado por condenações de expressivo valor, contendo a idéia didática para que o fornecedor/prestador não repetisse práticas lesivas. Esses julgados, passado algum tempo, acabaram por incentivar o que se designou como a “indústria do dano moral”, ou seja, situações de mero desconforto, trazendo o consumidor, a juízo, perseguindo lucro fácil e generoso.
Quando a magistratura percebeu o imprevisto aumento no número de demandas desprovidas de qualquer fundamento, como, por exemplo, em caso de pedido de esclarecimentos sobre discrepância de dados no momento de concessão de crédito, duas atitudes simultâneas foram naturalmente adotadas: a desconsideração de fatos comuns da vida de consumo como ensejadores de reparação de danos morais e estes, quando e se existentes, gerando condenações de pouca monta.
Essas condenações “baratas” acabaram por gerar, em importante fatia do mercado – em especial o de prestação de serviços, acomodação baseada em cálculos que apontavam menores despesas com indenizações do que as que deveriam ser feiras para melhoria nos sistemas e controles. Daí resultar nova reação dos Tribunais que passaram a receber, então, milhares de ações de consumidores, por terem sido lesados, a pleitear indenizações. Na atual etapa, a tendência que já se observa é de lento aumento nas quantias indenizatórias.
A atuação do Ministério Público, no que diz com a tutela coletiva ou difusa de direitos do consumo, representa ameaça à viabilidade financeira dos empreendedores. As condenações, em casos tais, vêm se mostrando bastante largas, tudo sem considerar, talvez, o maior prejuízo que é o de danos à imagem das empresas.
No CDC estão previstas, em prol do consumidor, a responsabilidade objetiva, ou seja, responde o prestador/fornecedor para com eventuais danos independentemente de culpa. A inversão do ônus da prova, vale esclarecer que o juiz pode transferir ao prestador/fornecedor a produção de provas que seriam, em princípio, de responsabilidade do consumidor. Nesses dois tópicos residem as oportunidades de maior ou menor êxito na defesa do empreendedor em demandas judiciais.
Para afastar incalculável passivo é imprescindível ao empresário atuar preventivamente treinando e reciclando seu pessoal, mantendo organizados registros escritos e/ou em imagens e sons das rotinas e reclamações recebidas, das providências adotadas e das informações transmitidas aos queixosos, tudo sem deixar ao lado investimentos em tecnologia.
Se mostrando inevitável a discussão judicial, cada processo deverá ser particularizado, cuidado e tratado como único, ao revés do tratamento massivo, expediente que, no afã de reduzir custos, acaba em reversão de expectativas. Uma vez em juízo, as relações dos empreendedores com magistrados, parte contrária e seus procuradores deve pautar-se pela firmeza cordial: a experiência mostra que a conduta dos litigantes em juízo atua definitivamente, tanto positiva quanto negativamente, na formação do convencimento dos julgadores.
Uma derradeira recomendação: fundamental o provisionamento de recursos, via orçamento anual, para suporte de eventuais indenizações que se tenha de alcançar. É a forma segura de afastar surpresas que poderão ser fatais e manter hígidas as finanças.
É curioso como os jornais de grande circulação no Estado têm publicado anúncios de empresas que oferecem vagas específicas para pessoas portadoras de deficiência.
A lei 8.213/91, artigo 93, determina que as empresas com 100 ou mais empregados preencham de 2% a 5% dos seus cargos com pessoas portadoras de deficiência ou beneficiários reabilitados - ppds, na seguinte proporcionalidade: a) de 100 a 200 empregados, 2%; b) de 201 a 500, 3%; c) de 501 a 1000, 4%; d) de 1001 ou mais ,5%.
O Ministério do Trabalho, por meio das Delegacias Regionais do Trabalho, vem atuando na fiscalização das empresas em relação ao preenchimento dessas cotas. As empresas, por sua vez, estão tentando cumprir a determinação legal, porém o mercado de trabalho não oferece mão de obra suficiente para suprir tal demanda.
Além disso, há, ainda, a dificuldade de permanência dos portadores de deficiência no trabalho, já que a demanda existente proporciona uma verdadeira oferta de empregos com salários mais atrativos, o que resulta na troca permanente de emprego e ocasiona um problema ao empregador que é obrigado a preencher imediatamente essa vaga para atender o sistema de cotas imposto pela lei.
As empresas, dentro desse contexto, adotam ações de inclusão dos ppds no ambiente de trabalho promovendo cursos e programas de capacitação de todos os seus colaboradores para garantir a permanência dos ppds no emprego.
O trabalho que vem sendo desenvolvido pelas Delegacias Regionais do Trabalho por meio do Núcleo de Igualdade no Trabalho e do Núcleo de Apoio a Programas Especiais estão resgatando a cidadania de pessoas portadoras de deficiência ou beneficiários reabilitados, que já totalizam no Rio Grande do Sul em 19% da população. Cada vez mais os deficientes estão fazendo valer os seus direitos, adquirindo o respeito da comunidade e elevando sua auto-estima, o que, com certeza, decorre, entre vários fatores, do direito ao emprego.
O problema, portanto, não está na indisponibilidade de cargos para preenchimento das cotas ou na implantação de pensamentos e atitudes inclusivas dos colaboradores de cada empresa, mas sim na localização desta mão de obra no mercado de trabalho.
Nessa questão, fica o questionamento: como devem as empresas proceder?
O Superior Tribunal de Justiça – STJ e o Supremo Tribunal Federal – STF, ao reverem entendimentos conferidos anteriormente a determinados assuntos tributários, têm proferido decisões favoráveis aos contribuintes.
Estes julgamentos já estão se refletindo nas decisões de primeira e segunda instância em que as empresas obtêm provimento a pedidos liminares com o objetivo de suspender a exigência de certos tributos, enquanto se discute o mérito da questão.
No tocante à contribuição previdenciária incidente sobre o terço constitucional de férias o STJ, depois de anos de julgamentos desfavoráveis aos interesses dos contribuintes, modificou sua posição após manifestação em sentido contrário do Supremo Tribunal Federal, passando a considerar que tal parcela possui natureza indenizatória.
Assim, o novo norte passou a propiciar às empresas buscar judicialmente o não recolhimento da referida contribuição, bem como a restituição dos valores despendidos a tal título nos últimos cinco anos.
Apenas com este novo posicionamento da Corte Superior, estima-se que as empresas que acorrerem ao Poder Judiciário para afastar o recolhimento da contribuição, economizarão em torno de 6% do valor nominal da folha de salários mensal.
Outra alteração, na mesma instância, trouxe benefício às empresas com altos índices de inadimplência de seus clientes – como, por exemplo, prestadoras de serviço de telefonia e concessionárias de energia elétrica. Trata-se da questão envolvendo a incidência de Imposto de Renda – IR e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL nos juros moratórios decorrentes dos valores recebidos pelas empresas dos seus devedores.
Apesar da controvérsia ainda não ter sido apreciada pelo STF, com a alteração do Código Civil os ministros do STJ passaram a considerar as quantias auferidas de juros moratórios como dotados de caráter indenizatório.
Nesta senda, firmou-se entendimento no Pretório Excelso de que os respectivos juros não estão sujeitos a tributação do IR e CSLL, pois não podem ser classificados como acréscimo de renda.
O êxito das teses fiscais tem beneficiado também os produtores rurais.
O Supremo Tribunal Federal, em recente decisão, declarou a inconstitucionalidade da contribuição ao FUNRURAL ante a falta de Lei Complementar lhe instituindo.
Desta forma, o produtor-empregador rural pessoa física que demandar em juízo poderá ficar desobrigado ao recolhimento sobre a receita bruta proveniente da comercialização da produção rural sendo-lhe viável, inclusive, obter a restituição dos valores recolhidos nos últimos cinco anos.
Embora os contribuintes tenham sido beneficiados com as recentes mudanças nos entendimentos dos Tribunais, até então proveitosos aos interesses da Fazenda Pública, começam a emergir decisões judiciais com indícios de sucesso às empresas contribuintes, a exemplo do Fator Acidentário de Prevenção – FAP.
O FAP está sendo alvo de acalorados debates jurídicos em razão do injustificável aumento da alíquota de recolhimento a título de Risco de Acidente de Trabalho – RAT (antigo SAT) e, considerando que administrativamente os recursos não surtiram resultados, as empresas que buscaram a tutela do Poder Judiciário vêm obtendo decisões favoráveis na primeira instância.
Portanto, para evitar uma sobrecarga de tributação desnecessária, recomenda-se às contribuintes atenção pois nos últimos anos o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça alteraram o entendimento sobre temas já consolidados, causando saudável e desejada reviravolta no cenário jurídico-tributário.
Assediar é submeter alguém a pequenos ataques repetidos com insistência, cujos atos deixam na vítima o sentimento de ter sido maltratada, desprezada, humilhada, rejeitada.
Não caracterizam o assédio moral os fatos isolados, decorrentes de alguma indisposição pontual ou de um simples mal-entendido, assim como as disposições individuais ou coletivas oriundas do poder de comando do empregador, desde que não atinja a honra, a intimidade e a dignidade do empregado.
Destaca-se que o assédio moral decorre de um desvio do exercício do poder nas relações de trabalho, que visa a criar ao trabalhador um ambiente hostil, desestabilizando o trabalhador que, hostilizado, com medo do desemprego, torna-se dócil e menos reivindicativo.
As condutas mais comuns de assédio moral são: isolamento do empregado, desconsideração de suas opiniões e de sua própria pessoa, gozações sobre seus defeitos físicos; divulgação de boatos maldosos; ataques à reputação e à família; delegação de tarefas flagrantemente superiores ou inferiores à sua capacidade; imputação de erros inexistentes; orientações, ordens ou instruções contraditórias e imprecisas; críticas em público; imposição de horários e tarefas injustificadas; atribuição de sobrecarga injustificada de trabalho; cobrança de urgência desnecessária no cumprimento de uma tarefa; isolamento do empregado; não atribuição de qualquer incumbência ao empregado; proibição de contato com outros colegas; recusa à comunicação direta com a vítima, dando-lhe ordens por meio de terceiros; supressão de documentos ou informações importantes para a realização do trabalho; ridicularização das convicções religiosas ou políticas, dos gostos do trabalhador; etc.
O assédio moral é ato cuja responsabilidade é imputada ao empregador que, como detentor do poder disciplinar, tem a obrigação de administrar tanto o conflito existente entre empregados do mesmo grau hierárquico, quanto o decorrente das próprias relações hierárquicas.
O assédio moral dá direito à indenização extrapatrimonial por atingir interesses da personalidade, da liberdade e da dignidade da pessoa. O trabalhador lesado poderá pleitear a correspondente reparação.
A Constituição Federal determina que a seguridade social seja financiada por toda a sociedade de forma direta e indireta, mediante recursos provenientes da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e das contribuições sociais.
Estas contribuições são exigidas, dentre outros contribuintes, do empregador e incidem nas verbas decorrentes da folha de salário e demais rendimentos do trabalho.
O recolhimento da contribuição previdenciária recai sobre os pagamentos com natureza essencialmente salarial, ou seja, com finalidade específica de consubstanciar contraprestação a trabalho.
As parcelas vencimentais se sujeitam a contribuição da seguridade social, também, por integrar o benefício a ser percebido pelo trabalhador quando da aposentadoria, diferentemente dos valores remunerados com índole indenizatória.
As verbas alcançadas ao empregado com caráter ressarcitório, tais como terço constitucional de férias, primeira quinzena do auxílio doença, auxílio creche, aviso prévio indenizado, auxílio educação e abono de férias previsto no artigo 143 da CLT não compõem a base de cálculo das contribuições previdenciárias.
Entretanto, o recolhimento de contribuição previdenciária vem sendo exigido dos empregadores sobre a integralidade da remuneração conferida aos trabalhadores, tanto as de natureza salarial quanto compensatória.
O Superior Tribunal de Justiça já se manifestou frente à matéria, declarando que não incide contribuição previdenciária sobre as parcelas indenizatórias, pois não remuneram o trabalho, tampouco não se incorporam à remuneração do empregado para fins de aposentadoria.
A Corte determinou, ainda, a devolução dos valores recolhidos indevidamente, corrigidos à taxa Selic, nos últimos dez anos.
A exigência de contribuição patronal sobre verbas indenizatórias para financiar a seguridade social contraria o texto da Constituição Federal subvertendo, ainda, a lógica da tributação por desvio de finalidade do recolhimento, ao passo que estes valores não integrarão os proventos a ser percebidos pelo trabalhador na aposentadoria.
Portanto, o contribuinte pessoa jurídica que comprovar o recolhimento previdenciário ao INSS sobre o terço constitucional de férias, a primeira quinzena do auxílio doença, o auxílio creche, o aviso prévio indenizado, o auxílio educação e abono de férias previsto no artigo 143 da CLT, poderá obter a restituição dos valores pagos e a não incidência do imposto nas parcelas vincendas, para tanto demandando ante o Poder Judiciário.
Alterações na Lei de Locações: prévio exame dos novos riscos por Fabio Milman
Estão em vigor mudanças introduzidas na Lei do Inquilinato ou Lei das Locações. As novidades, em praticamente sua totalidade, cuidam da locação residencial. O intuito de tais alterações, conforme revelado pelos meios de imprensa e confirmado pela simples leitura do texto inédito, foi fomentar a oferta de unidades no mercado e tornar mais ágil a contratação.
Para tanto, como forma de estímulo ao proprietário, passa a ter ele a opção de dispensar garantias (mais comumente, seguro ou fiador) recebendo, em contrapartida, facilidades para, em futura e eventual Ação de Despejo, obter liminar que lhe restitua a posse do imóvel em quinze (15) dias.
Esse prazo, é voz comum, mostra-se extremamente inferior àquele normalmente despendido em juízo para a rescisão dos contratos de locação e retomada do item alugado, o que não acontecia e não acontece no que tange aos contratos para os quais mantida, pelo locador, exigência de garantias.
Faz-se necessário, a respeito, alguma reflexão.
Não são tão raras as situações em que a desocupação pelo inquilino deixa um rastro de prejuízos que tanto podem resultar de meses e meses de continuada inadimplência e/ou danos que exigem, para recolocação do bem no mercado de locações ou sua venda valorizada, onerosa reparação.
Portanto, optando o proprietário pela desnecessidade da exigência de garantias, é fundamental previamente avaliar a relação custo/benefício. Nossa orientação, ao menos na generalidade das situações, é de que não haja a dispensa. Ainda mais que, na forma mais usual dessas modalidades – a fiança, a presença de fiador acaba por agregar à relação de conflito um sujeito que, no mais das vezes, também atua como instrumento de pressão junto ao inquilino para que este busque, por todos os meios, resolver os desacertos de suas obrigações ante o senhorio.
Apresenta a nova lei outra hipótese de despejamento célere, essa sim como benefício real àquele que loca sem prejuízo qualquer à existência das garantias: a concessão de liminar visando à imediata desocupação nas locações para fins residenciais, depois de esgotado o prazo certo do contrato, desde que a Ação de Despejo seja proposta em até trinta (30) dias do final do tempo do contrato ou, após esse período, em até trinta (30) dias da comunicação formal que se fizer ao locatário acerca da vontade de retomada.
As demais mudanças, no que diz com as locações residenciais, constituem em realidade meras trocas formais, singelas adaptações às situações de interpretação pacificadas pelos Tribunais do país. Nada que adentre na essência dos institutos locatícios.
Ao final, uma referência às locações não-residenciais cobertas pelo direito à renovação compulsória – situação que ainda utiliza, popularmente, a antiga expressão Lei de Luvas. O único ponto tocado pela nova lei diz respeito ao prazo para o inquilino, se vencido na Ação Renovatória, desocupar e restituir o bem: no lugar de seis (06) meses, agora atua lapso bastante mais enxuto, qual seja, de trinta (30) dias.
Como toda alteração legislativa que tenha por objeto a melhoria das relações negociais, o decurso do tempo acabará por revelar se, como na maioria das vezes, a idéia de aperfeiçoamento serviu de mero laboratório de experiência – o que, já revelamos acima, entendemos acabe por ocorrer – ou, de modo contrário, trará ao mercado de locações novo fôlego e equilíbrio entre direitos e obrigações das partes do contrato.
Os contratos celebrados pelo Poder Público encontram-se submetidos a um conjunto de regras legais que traz consigo a preocupação básica de se construir um ambiente de plena competitividade, voltada à obtenção de contratações mais vantajosas ao interesse da coletividade. Justamente por tal razão é que a própria Lei de Licitações, em seu art. 3°, destaca como finalidades precípuas de todo e qualquer processo licitatório, de um lado, a isonomia, e, de outro, a obtenção da proposta mais vantajosa. Dessa forma, todos os institutos que se relacionem, direta ou indiretamente, com licitações e com contratos públicos, hão de ser interpretados com os olhos voltados à referida preocupação com a competitividade.
Isso ocorre, por exemplo, com o instituto da subcontratação, o qual, cumpre salientar, não é proibido segundo a legislação brasileira. Aliás, é regulamentada na Lei de Licitações e na Lei de Concessões.
Nos contratos públicos, a subcontratação enfrentará restrições que podem ser dividas em duas espécies. No caso de limites formais, há a necessidade de previsão no edital e no contrato, além de autorização específica outorgada pela Administração Pública contratante.
Contudo, em termos de preservação da noção de competitividade, mostra-se ainda mais relevante a observância de limites materiais, destacados em nome da preservação da validade do processo licitatório.
De início, pode-se dizer que a subcontratação será necessariamente parcial. Ora, de nada adiantaria todo um conjunto de normas prevendo o dever de licitar, se fosse juridicamente viável que o vencedor da licitação pudesse subcontratar a totalidade de suas obrigações com terceiros.
De outra banda, mostra-se necessário atentar para a proibição de subcontratação relacionada com características que tenham sido determinantes para a escolha daquele como prestador de serviço.
Diante disso, conclui-se que nenhum dos aspectos que foram relevantes para que uma empresa ou entidade tivesse sido contratada pelo Poder Público poderá ser objeto de subcontratação, a qual somente poderá recair sobre aspectos secundários da contratação. Caso contrário, estar-se-ia frustrando o caráter competitivo que deve ser inerente aos modos de seleção pública.
Plano de saúde e a suspensão do contrato de trabalho pela concessão do auxílio doença por Carolina Franciosi Tatsch
Muito se tem discutido a respeito da necessidade do empregado versus a desobrigação da empresa quanto à manutenção do plano de saúde do colaborador que se encontra afastado do trabalho, em benefício previdenciário.
A controvérsia aqui examinada diz respeito ao direito ou não do empregado em continuar beneficiário do plano de saúde mantido pelo empregador, apesar de seu contrato de trabalho estar suspenso por gozo de auxílio doença recebido do INSS.
De acordo com o artigo 475 da CLT, o afastamento do empregado para percepção da aposentadoria por invalidez – e, por analogia, do auxílio doença previdenciário – gera a suspensão do contrato de trabalho.
Isso porque, este período de afastamento não é remunerado pelo empregador, cujo ônus fica a cargo do órgão previdenciário, a teor do disposto no artigo 476 da CLT c/c artigo 20 e seguintes da Lei nº 8.213/91.
Muitas empresas defendem a tese de que, uma vez suspenso o contrato de trabalho, suspensa estaria também a obrigação da prestação do serviço, pelo empregado, e, na contrapartida, o pagamento da remuneração pelo trabalho, pelo empregador.
A manutenção do plano de saúde, entendem as empresas, estaria englobada na remuneração do trabalho, e por isto estaria também suspensa até o retorno do empregado.
Ou seja, embora essa espécie de suspensão contratual mantenha algumas obrigações econômicas empresariais, dentre elas não se contemplaria o plano de saúde, argumenta a classe econômica.
Contudo, conforme recente e majoritário entendimento do TST, o direito à manutenção do plano de saúde depende da permanência do vínculo de emprego, e não da prestação de serviço.
Tendo em vista que o direito ao plano de saúde não está vinculado à prestação do trabalho, em si, deve ser mantido pelo empregador durante o gozo do benefício previdenciário, entende o TST.
Além disso, seria neste momento, em gozo de benefício de auxilio doença, que o empregado mais necessitaria do plano de saúde, diz a corrente dominante do Judiciário, e este se constitui, talvez, no argumento mais sensível a ser combatido pelas empresas na Justiça do Trabalho.
Sumula Vinculante nº 21 do STF - Do efetivo acesso ao direito da ampla defesa na esfera administrativa por Milene Saraiva Sachs
O STF aprovou, em 29.10.2009, a proposta de edição da súmula vinculante nº. 21, que impede a exigência de depósito ou arrolamento prévio de dinheiro ou bens para a admissibilidade de recurso administrativo.
Revendo posicionamento anteriormente adotado, a Corte firmou entendimento de que a exigibilidade de tal depósito é inconstitucional por violar os incisos XXXIV, alínea a, e LV do artigo 5º da Carta Magna. O inciso XXXIV do artigo 5º prevê que a todos são assegurados, independentemente do pagamento de taxas, o direito de petição aos poderes públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso do poder.
O inciso LV, por sua vez, assegura aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, o contraditório e a ampla defesa com os meios e recursos inerentes.
Ante tais previsões, resta evidente que o direito de petição abrange, além dos processos judiciais, o pleito administrativo, sendo prerrogativa dos que se inconformarem valer-se dos recursos cabíveis. Com efeito, admitir-se que a decisão administrativa seja única e irrecorrível acaba por resultar em evidente afronta ao principio constitucional da ampla defesa, o que não se pode tolerar em um Estado Democrático de Direito. Sopesando estas duas previsões constitucionais, os Ministros do Supremo Tribunal Federal ponderaram que a exigibilidade do depósito prévio, em alguns casos, resulta na supressão do direito de recorrer - uma vez que nem sempre o administrado infrator tem condições econômicas de arcar com o depósito da multa aplicada, seja integral ou parcialmente, o que até então era requisito de admissibilidade do recurso. Assim sendo, conclui-se que a gratuidade na esfera administrativa, tal como decidido, certamente resulta em tornar efetiva a garantia do exercício aos consagrados princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório.
Neste sentido, aliás, resta também prestigiado o princípio da isonomia, tendo em vista que, de fato, em hipótese alguma serão desiguais perante a Administração Pública os administrados de diferentes condições econômicas.
Por fim, podemos graduar que o ingresso da Súmula Vinculante nº. 21 no mundo jurídico brasileiro, além de favorecer ao administrado – que terá assegurado o seu direito de petição, também propicia à Administração Pública revisão e eventual correção de seus atos, impedindo que se perpetuem aqueles que porventura sejam ilícitos e cujo deslinde reclamará, perante o Poder Judiciário, largo lapso até solução, oportunizando o cumprimento do também constitucional princípio da legalidade.
A Súmula Vinculante nº. 21 foi editada após o julgamento do RE 388.359, cuja sessão foi presidida pelo Ministro Gilmar Mendes. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Marco Aurélio, César Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa, Eros Graus, Ricardo Lewandowski e Carmen Lúcia. Revendo posicionamento anteriormente adotado, a Corte firmou entendimento de que a exigibilidade de tal depósito é inconstitucional por violar os incisos XXXIV, alínea a, e LV do artigo 5º da Carta Magna. O inciso XXXIV do artigo 5º prevê que a todos são assegurados, independentemente do pagamento de taxas, o direito de petição aos poderes públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso do poder.
O inciso LV, por sua vez, assegura aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, o contraditório e a ampla defesa com os meios e recursos inerentes.
Ante tais previsões, resta evidente que o direito de petição abrange, além dos processos judiciais, o pleito administrativo, sendo prerrogativa dos que se inconformarem valer-se dos recursos cabíveis. Com efeito, admitir-se que a decisão administrativa seja única e irrecorrível acaba por resultar em evidente afronta ao principio constitucional da ampla defesa, o que não se pode tolerar em um Estado Democrático de Direito. Sopesando estas duas previsões constitucionais, os Ministros do Supremo Tribunal Federal ponderaram que a exigibilidade do depósito prévio, em alguns casos, resulta na supressão do direito de recorrer - uma vez que nem sempre o administrado infrator tem condições econômicas de arcar com o depósito da multa aplicada, seja integral ou parcialmente, o que até então era requisito de admissibilidade do recurso. Assim sendo, conclui-se que a gratuidade na esfera administrativa, tal como decidido, certamente resulta em tornar efetiva a garantia do exercício aos consagrados princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório.
Neste sentido, aliás, resta também prestigiado o princípio da isonomia, tendo em vista que, de fato, em hipótese alguma serão desiguais perante a Administração Pública os administrados de diferentes condições econômicas.
Por fim, podemos graduar que o ingresso da Súmula Vinculante nº. 21 no mundo jurídico brasileiro, além de favorecer ao administrado – que terá assegurado o seu direito de petição, também propicia à Administração Pública revisão e eventual correção de seus atos, impedindo que se perpetuem aqueles que porventura sejam ilícitos e cujo deslinde reclamará, perante o Poder Judiciário, largo lapso até solução, oportunizando o cumprimento do também constitucional princípio da legalidade. A Súmula Vinculante nº. 21 foi editada após o julgamento do RE 388.359, cuja sessão foi presidida pelo Ministro Gilmar Mendes. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Marco Aurélio, César Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa, Eros Graus, Ricardo Lewandowski e Carmen Lúcia.
Da prescrição nas ações indenizatórias por acidente do trabalho por Tatiani Pereira Costa
Até a EC nº 45/2004, as ações indenizatórias por acidente do trabalho tramitavam perante a Justiça Comum, sendo aplicável a prescrição civil para essas demandas.
A partir da EC nº 45/2004 passou-se a discutir qual a prescrição aplicável para essas ações, que passaram a tramitar perante a Justiça do Trabalho.
Há muita divergência em os nossos Tribunais Pátrios quanto ao marco inicial para contagem da prescrição em relação aos acidentes do trabalho ocorridos antes ou depois da edição do CC, em 2002, e da promulgação da Emenda Constitucional nº45/2004.
Inicialmente cabe destacar que a prescrição é instituto de direito material coligado à natureza do direito pretendido,
Ora, sendo o direito decorrente da relação laboral, aplica-se a prescrição trabalhista por inerente à natureza da indenização pretendida.
A partir da vigência da EC nº 45/2004, que se atribuiu competência à JT para processar e julgar as ações de indenização por danos morais e materiais decorrentes das relações de trabalho, incide o prazo de 5 anos, observado o biênio da extinção efetiva do contrato de trabalho, conforme descrito no art. 7º, XXIX da CF/88, contando-se o a partir de 31/12/2004, quando entrou em vigor a referida emenda constitucional, isso para os acidentes do trabalho ocorridos a partir dessa data.
Para os acidentes do trabalho ocorrido antes da vigência da EC nº 45/2004, por segurança jurídica, tem-se compreendido a aplicação dos institutos de Direito Civil.
Por conseguinte, considerando a data do acidente do trabalho ou da ciência da consolidação das lesões, para as doenças ocupacionais ou do trabalho, a prescrição a ser aplicada ao caso concreto pode variar.
Frisa-se que poderá ser aplicável a prescrição prevista no art. 177 do CC de 1916 e a regra de transição prevista no art. 2.028 do CC/2002, se o acidente do trabalho ou a ciência do dano ocorreu antes de 11/01/2003.
Também poderá ser aplicável o prazo prescricional de 3 anos previsto no art 206, § 3º, V do CC/2002, se o acidente do trabalho ou a ciência do dano ocorreu após 11/01/2003.
E a partir da vigência da EC nº 45/2004, deve-se entender aplicável a prescrição trabalhista prevista no art. 7º, XXIX da CF/88, a partir de 31/12/2004, quando entrou em vigor a referida emenda constitucional, isso para os acidentes do trabalho ocorridos a partir de tal data.
Cabe destacar, ainda, que a jurisprudência não é pacífica a respeito do tema e que há grande divergência em nossos Tribunais Pátrios a respeito da prescrição a ser aplicável a cada caso, mas tem sido este o entendimento majoritário do TST relativamente a prescrição aplicável para as ações indenizatórias por acidente do trabalho.
Terceirização: aspectos polêmicos do Projeto de Lei 4302/98 por Mônica Canellas Rossi
A Terceirização vem gerando discussões quanto às condições dos empregados terceirizados e responsabilidade das empresas tomadoras. A Súmula 331 do TST pôs fim a várias polêmicas, estabelecendo a legalidade da Terceirização destinada à atividade meio e trabalho temporário; definiu que o tomador é responsável subsidiário pelo inadimplemento das obrigações por parte do empregador. Dúvidas remanescem.
A prática é ampla e na maioria das vezes eficaz, preocupando prestadores e tomadores dos serviços, empregados e judiciário, as possibilidades de fraude.
O Projeto de Lei 4302/98 busca regularizar os Contratos de Prestação de Serviço, trazendo normas difícil execução. O esboço assegura ao empregado da prestadora a percepção dos direitos previstos na convenção ou acordo coletivo de trabalho da tomadora, o que leva à alteração de remuneração a cada contrato podendo, de acordo com sua colocação, receber maior ou menor piso salarial. Dois são os questionamentos: a) como ficará o empregado quando ocorrer redução nos seus vencimentos? b) qual a vantagem em terceirizar a atividade?
No que diz com a contratação da prestadora de serviços, o art. 3º do Projeto a burocratiza, estabelecendo que a tomadora comunicará, com antecedência de 120 dias, à entidade sindical representativa da sua categoria, motivo da contratação, além do período, custos, número de empregados envolvidos, locais da prestação e redução de custos. É coerente tal procedimento?
Indiscutível que as atividades ligadas à Terceirização necessitam de regulamentação visando, acima de tudo, à segurança jurídica; contudo, o Projeto merece amadurecimento, sob pena de se transformar em mais uma norma inexeqüível.
O FAP surgiu como um multiplicador que pode propiciar a redução da carga tributária da empresa em até 50%, relativa ao financiamento do SAT (Seguro Acidentes do Trabalho), se esta investir e comprovar o investimento em meio ambiente do trabalho. Por outro lado, a empresa poderá ter a sua carga tributária majorada em até 100%, caso não invista em meio ambiente do trabalho, tendo como reflexos disso empregados se afastando ou afastados do trabalho por enfermidades originadas no ambiente laboral. Com base em dados correspondentes a cada um dos fatores que compõem o FAP, buscava-se permitir ao INSS, adotar medidas de prevenção e combate à incidência de acidentes do trabalho.
Cada setor de atividade econômica possui uma classificação de risco, que equivale a 1%, 2% ou 3% de contribuição sobre a folha salarial. Dentro dos seus respectivos setores, as empresas serão monitoradas e receberão uma classificação anual, feita de forma individualizada com base no indicador de sinistralidade, calculado de acordo com a gravidade, freqüência e os custos dos acidentes de trabalho.
Com base na regulamentação legal que instituiu o FAP, o Poder Executivo poderá até aumentar o SAT, caso a empresa não venha atender as expectativas de investimentos em prevenção e controle de acidentes de trabalho. Desta forma, em que pese a sedutora possibilidade de redução da carga tributária, em verdade, tem se constatado na prática, que os fatores que influenciam na apuração do FAP sofrem distorções tecnicamente injustificáveis quando aplicados pelo INSS, gerando na maioria das vezes, o aumento do SAT, não só para aquelas empresas que não tomaram as medidas cabíveis em matéria de medicina e segurança do trabalho.
Por este motivo e, principalmente, por se mostrar como meio de acréscimo a já pesada carga tributária, o FAP tem sido alvo de acalorados debates no meio empresarial, pois sua metodologia de apuração, não necessariamente, premia o investimento em políticas de segurança e saúde do trabalhador, com redução na alíquota do SAT.
Frente a este contexto, as empresas devem estar atentas aos resultados das análises promovidas pelo INSS que irão indicar o seu FAP e, principalmente, aos dados lançados que deram origem ao mesmo, para, havendo qualquer divergência nos dados apurados pela Previdência Social, ingressarem com a competente impugnação administrativa ou judicial.
Entretanto, conforme PORTARIA INTERMINISTERIAL Nº 329, de 10.12.2009 (DOU 11.12.2009), o prazo para eventual impugnação administrava, expirou em 12.01.2010.
Portanto, para as empresas que apresentaram a contestação administrativa, a portaria também prevê que, se do seu julgamento resultar FAP inferior ao atribuído pelo MPS, em razão dessa redução os valores serão compensados no recolhimento da Previdência nos meses seguintes. Se, por outro lado, o resultado for desfavorável ao contribuinte, ainda assim, será cabível a discussão por meio de ação judicial, caso exista o direito.
Cartórios e tabelionatos: concurso público e segurança jurídica por Rafael Da Cás Maffini
Em um Estado de Direito democrático e republicano afigura-se imperiosa a realização de concursos públicos para o provimento das serventias notariais e registrais (costumeiramente denominados de tabelionatos e cartórios). Aliás, a exigência de prévia realização de concurso público para o provimento de tais funções públicas, encontra amparo constitucional no Art. 236, da Carta Política vigente.
Ocorre que, embora imbuído de tal preocupação, em geral plenamente adequada, parece que o Conselho Nacional de Justiça vem adotando providências que acaba por infringir a outros valores constitucionais não menos relevantes, notadamente o princípio da segurança jurídica e um de seus principais consectários, qual seja, a noção proteção da confiança, inclinado à estabilização das relações jurídicas.
Com efeito, a partir da edição da Resolução n° 80, de 09 de julho de 2009, o CNJ confeccionou lista provisória de serventias vagas, publicada no Diário de Justiça Eletrônico de 22 de janeiro de 2010, a qual redundou num espantoso número de mais de 7800 cartórios e tabelionatos que teriam tido seu provimento irregular e, portanto, que deveriam a partir de agora ser providos por concurso público. Reitere-se que tal postura, em geral absolutamente adequada, homenageia a um dos valores constitucionais em jogo (a exigência de concurso público).
No entanto, em alguns casos, tais providências culminam por agredir mortalmente às noções acima referidas de segurança jurídica e de proteção da confiança. Isso porque em várias das serventias consideradas vagas, a condição do notário ou registrador que atualmente por ela responde decorre de atos estatais, normalmente praticados sob o manto da presunção de legitimidade, por Tribunais de Justiça. Não se diga que tais atos são, atualmente, considerados incompatíveis com Constituição Federal, uma vez que quando foram perpetrados, tais condutas estatais não eram considerados como viciados. Demais disso, os seus destinatários restaram beneficiados na mais absoluta boa-fé por um largo lapso temporal, na maior parte dos casos aportando significativos investimentos nas suas serventias.
Em casos como tais, há argumentos jurídicos, inclusive lastreados pela doutrina brasileira e estrangeira e por uma série de decisões judiciais do STF e STJ, que impõe a manutenção de tais atos administrativos que, a despeito de terem sido originados de modo irregular, devem ser preservados e estabilizados em nome da segurança jurídica.
Em cada caso, portanto, deverá emergir um interessante debate para se vislumbrar se a situação exige a priorização da regra constitucional da exigência de concurso público ou a do princípio da segurança jurídica.
Averbação Manifestamente Indevida da Penhora por Fabio Milman
A averbação da ação de execução, novidade introduzida pela Lei n° 11.382/06 por meio do art. 615-A do CPC , se apresenta como verdadeiro efeito antecipado na demanda executiva que, modo ordinário, somente decorreria da penhora , com forte eficácia cautelar , aumentando sua probabilidade de êxito , tendo como objetivo dotar o exeqüente de maior segurança ao permitir, a terceiros, ciência do ajuizamento da demanda de expropriação , gerando presunção absoluta de que havida em fraude a alienação ou oneração de bens efetuada após seu desempenho. A hipótese em tratamento veio acompanhada de técnica de desestímulo à irresponsabilidade do autor da demanda de expropriação ao prever, no § 4° do mesmo art. 615-A, que: “O exeqüente que promover averbação manifestamente indevida indenizará a parte contrária, nos termos no § 2° do art. 18 desta Lei, processando-se o incidente em autos apartados”.
Na medida em que a punição ao mau uso da faculdade de averbação da ação de execução dar-se-á em conformidade com o mencionado § 2° do art. 18 do Código, considerando que o art. 18, caput, informa que seu conteúdo diz com a condenação do litigante de má-fé, fica evidente cuidar-se o ato sob foco de uma explicitação de alguns dos tipos do art. 17, estes dedicados à enumeração exemplificativa de litigância de má-fé. Examinada a lista, nosso entendimento indica possibilidade eventual de enquadramento nos incisos II (alterar a verdade dos fatos), III (usar do processo para conseguir objetivo ilegal) e V (proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo).
De observar a enorme gravidade da conduta abusiva pretendida evitar: direito potestativo do exeqüente , de aplicação plena também no cumprimento da sentença de obrigação de pagar quantia certa , sem qualquer ordem judicial, sem exercício de contraditório e antes mesmo da citação com abertura da oportunidade legal do pagamento ou, ainda, de indicação de bens à penhora, o exeqüente cuidará, pessoal e independentemente de maiores formalidades, de lançar gravame sobre itens patrimoniais do apontado devedor . O réu da execução, valendo-se dos meios habituais de defesa de seus interesses (impugnação, embargos ou mesmo exceção de pré-executividade) poderá demonstrar, tempo depois, sequer ser devedor tendo sofrido, contudo, possíveis prejuízos decorrentes da averbação comentada.
O legislador reformista não precisou o conceito de “averbação manifestamente indevida”, deixando-o aberto. Pode-se cogitar, em tal categoria de atuação, o agir doloso do autor da ação de execução com a intenção evidente de causar danos a desafeto ou adversário ou concorrente obstaculizando, com seu procedimento de imposição de restrição unilateral e particular, a obtenção de financiamento mediante hipoteca de bem imóvel até então livre e desembaraçado; o uso da averbação mesmo já existente bens outros sobre os quais o exeqüente exerce direito de retenção ou garantia real ; o emprego excessivo da medida, considerado o valor dos bens em comparação com aquele sob exigência ; aquela que decorre de mero capricho ou feita fundada em título falso ou em dívida já paga ;
Os comentadores, debruçados sobre o texto legal, dividem-se na avaliação da natureza objetiva ou subjetiva da responsabilidade do exeqüente pela “averbação manifestamente indevida”. Nosso entendimento no tratamento das hipóteses de improbidade sempre busca trabalhar a idéia preferencial de responsabilidade objetiva, dada a pouca chance efetiva de, na rotina forense, haver espaço e tempo que possam ser ocupados pela dedicação dos magistrados à investigação da intencionalidade do agente, daí resultando sempre frustrante impunidade.
Tanto assim que o art. 739-B, acrescentado ao CPC pela Lei n° 11.382/06, afirma que a exigência “de multa ou de indenização decorrentes de litigância de má-fé (arts. 17 e 18) será promovida no próprio processo de execução, em autos apensos, operando-se por compensação ou por execução”. Ora, a “cobrança de multa ou de indenização”, mediante compensação, somente poderá resultar de ter sido o exeqüente punido por agir de forma ímproba com a redução do valor de seu crédito (que será compensado com a montante de sua própria punição) ou mesmo restando, ao cabo, devedor do executado, se a quantia a qual condenado pelo mau comportamento mostrar-se superior àquela objeto da execução.
Já referimos ao conceito aberto traduzido pela expressão “averbação manifestamente indevida”. É entendimento de Glauco Gumerato Ramos de tal condição resultar o processamento da discussão sobre a ocorrência abusiva da averbação em autos apartados. Divergimos: o texto ora em estudo, ao remeter a aplicação da sanção ao conteúdo do § 2° do art. 18 do CPC, cogita possa o juiz fixar o valor da indenização de modo pronto, nos próprios autos da ação de execução, dispensando apuração em apartado, forma que somente será adotada quando e se necessária liquidação.
Embora tenha o legislador incluído a “averbação manifestamente indevida” como hipótese de litigância de má-fé, o fato de ter o § 4°, do art. 615, indicado aplicação apenas da pena prevista no § 2° do art. 18 (indenização desde logo fixada pelo juiz, em quantia não superior a 20% sobre o valor da causa, ou apurada pela via da liquidação por arbitramento) afasta a regra do caput do mesmo art. 18 que prevê, independentemente da ocorrência de prejuízos, incidência de “multa que não exceda a um por cento sobre o valor da causa”. E não conseguimos compreender por qual motivo, dado que independentemente da causação de prejuízos, o exeqüente, com a operação criticada, exerceu de modo ímprobo prerrogativas processuais com o que deve, sim, responder também com a pena pelo tão-só mau agir.
Se a novidade trouxe, para a parte exeqüente, maior garantia quanto à satisfação do crédito reclamado, em idêntica proporção exigiu seriedade e comedimento em seu emprego. Ao cabo, para reflexão: na medida em que a norma em exame prevê sanção pecuniária, sem apresentar alternativas de punição, escapará de qualquer efetiva responsabilidade o exeqüente desprovido de condições financeiras e patrimoniais que averbar, modo manifestamente indevido, a execução.
CPC: “Art. 615-A. O exeqüente poderá, no ato da distribuição, obter certidão comprobatória do ajuizamento da execução, com identificação das partes e valor da causa, para fins de averbação no registro de imóveis, registro de veículos ou registro de outros bens sujeitos à penhora ou arresto”.
ASSIS, Araken de. Manual de Execução, 11ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 441.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Processo de execução e cumprimento da sentença, 24ª ed., São Paulo: Livraria e Editora Universitária de Direito, 2007, p. 190.
SILVA, Jaqueline Mielke; XAVIER, José Tadeu Neves; SALDANHA, Jânia Maria Lopes. A nova execução de títulos executivos extrajudiciais: as alterações da Lei n° 11.382/2006, Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2007, p. 66.
BUENO, Cássio Scarpinella. A nova etapa da reforma do Código de Processo Civil: comentários sistemáticos à Lei n° 11.382, de 6 de dezembro de 2006, v. 3, São Paulo: Saraiva, 2007, p. 45.
SANTOS, Ernani Fidélis dos. As reformas de 2006 do Código de Processo Civil: execução dos títulos extrajudiciais, São Paulo: Saraiva, 2007, p. 21. ASSIS, Araken de. Op. cit., p. 260. Posição divergente tem Rodolfo da Costa Manso Real Amadeo (“Reflexões sobre a averbação do ajuizamento da execução”, In: COSTA, Susana Henriques da (coord.). Execução extrajudicial. São Paulo: Quartier Latin, 2007, p. 167), para quem a presunção de insolvência que emerge do § 3° do art. 615-A do CPC é relativa, “(...) o que implica dizer que pode ser elidida pelo devedor-executado ou pelo terceiro adquirente, bastando a prova de que, no momento da alienação ou oneração do bem objeto da averbação, existiam no patrimônio do devedor bens suficientes para satisfazer o crédito exeqüendo”.
Em sentido diverso leciona Rodolfo da Costa Manso Real Amadeo (“Reflexões sobre a averbação do ajuizamento da execução”, In: COSTA, Susana Henriques da (coord.). Execução extrajudicial. São Paulo: Quartier Latin, 2007, p. 171), ao informar que a averbação manifestamente indevida “não configuram em princípio, ato de litigância de má-fé, não se subsumindo a nenhuma das hipóteses previstas no art. 17 do Código de Processo Civil.”
SILVA, Jaqueline Mielke; XAVIER, José Tadeu Neves; SALDANHA, Jânia Maria Lopes. A nova execução de títulos executivos extrajudiciais: as alterações da Lei n° 11.382/2006, Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2007, p. 70.
WAMBIER, Luiz Rodrigues; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; MEDINA, José Miguel Garcia. Breves comentários à nova sistemática processual civil, v. 3, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 75.
RAMOS, Glauco Gumerato. Reforma do CPC 2, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 156. SANTOS, Ernani Fidélis dos. Op. cit., p. 55.
O texto legal indica, especificamente, duas classes de direitos patrimoniais objeto de registro – imóveis e veículos, ainda admitindo a averbação da execução em relação a “outros bens sujeitos à penhora ou arresto” que sejam, parece evidente, também daqueles cuja titularidade é verificada e controlada pela via modo registral. Dentre tantos, as cotas sociais na Junta Comercial, ações perante a Bolsa de Valores, aeronaves (Lei n° 7.565/86, arts. 72 e 74, o Código Brasileiro de Aeronáutica), navios e embarcações (junto ao Tribunal Marítimo, conforme Lei n° 2.180/54, arts. 13, II).
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Op. cit., p. 191.
É o entendimento de Araken de Assis (op. cit., p. 442) e Jaqueline Mielke Silva, José Tadeu Neves Xavier e Jânia Maria Lopes Saldanha (op. cit., p. 69). Em sentido diverso Humberto Theodoro Júnior (op. cit., p. 191): “Não se pode, evidentemente, impor essa sanção apenas porque o bem averbado é de valor superior ao do crédito exeqüendo”.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. A reforma da execução do título extrajudicial, Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 35.
SANTOS, Ernani Fidélis dos. Op. cit., p. 21.
Afirmando a responsabilidade objetiva no caso em tela, Jaqueline Mielke Silva, José Tadeu Neves Xavier e Jânia Maria Lopes Saldanha (op. cit., p.69), invocando a teoria do risco; na mesma linha, Luiz Rodrigues Wambier, Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina (op. cit., p. 78), asseverando presença da “averbação manifestamente indevida” se for possível a constatação de que o ato do exeqüente tenha destoado “da boa-fé objetiva, dos bons costumes e do fim social ou econômico do direito; modo diverso, apontando tratar-se de responsabilidade subjetiva, Cassio Scarpinella Bueno (op. cit., p. 53), contando, para exigibilidade da indenização, demonstração, pelo executado, de ter obrado o autor da execução com dolo ou culpa; e, ainda, Glauco Gumerato Ramos (op. cit., p. 163), para quem o ilícito processual somente assim poderá ser considerado se tiver o exeqüente plena ciência de tratar-se de averbação realmente indevida.
MILMAN, Fabio. Improbidade processual: comportamento das partes e de seus procuradores no processo civil, Rio de Janeiro: Forense, 2007.
Expressam entendimento em tal sentido Jaqueline Mielke Silva, José Tadeu Neves Xavier e Jânia Maria Lopes Saldanha (A nova execução..., p. 267) e Luiz Rodrigues Wambier, Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina (Breves comentários à nova sistemática processual civil, 3, p. 217).
RAMOS, Glauco Gumerato. Reforma do CPC 2, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 163.
Posição compartilhada por Daisson Flach (A nova execução de títulos extrajudiciais. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 27).
Também forma de pensar de Cássio Scarpinella Bueno (A nova etapa da reforma do Código de Processo Civil: comentários sistemáticos à Lei n° 11.382, de 6 de dezembro de 2006, v. 3, São Paulo: Saraiva, 2007, p. 55).
O novo conceito legal de sentença e suas repercussões recursais: primeiras experiências com a apelação por instrumento. por Fabio Milman
Com a entrada em vigor da Lei n° 11.232/05, a definição legal de sentença em nosso país suportou substancial alteração, deixando, como anotado por HUMBERTO THEODORO JÚNIOR , de “atentar para os reflexos que a nova conceituação haveria de ter sobre o sistema de recursos do Código”. Até então, constava no § 1º do artigo 162 do Código de Processo Civil consistir a sentença em ato do juiz que punha fim ao processo, decidindo ou não o mérito da causa.
Adequadas e pertinentes as críticas que se avolumavam em torno da definição de sentença estampada no Código. Em primeiro lugar, havia no sistema – e ainda há – processos de conhecimento com mais de uma sentença, não sendo a primeira apta a pôr fim ao processo, mas, sim, a resolver determinada porção de controvérsia. Assim está, por exemplo, na ação de prestação de contas (§ 2° do art. 915 e art. 918 do CPC), na ação de consignação interposta em razão de dúvida quanto a quem deva legitimamente receber (arts. 895 e 898 do CPC), na ação de demarcação (arts. 958 e 966 do CPC) e de divisão (parágrafo único do art. 971 e art. 980 do CPC).
Na mesma linha, em razão das várias modificações que se foram sucedendo na lei instrumental ao longo das décadas, especialmente aquelas que alteraram forma de cumprimento dos títulos judiciais (arts. 461, 461-A, 475-J e 644 do CPC) , as demandas de natureza condenatória tornaram os títulos nelas gerados pacientes de exigibilidade sem necessidade de conversão de rito, de nascimento de outro processo (a antiga ação de execução de sentença ou de título judicial), com o que tais sentenças deixaram de significar o fim do processo.
Outro argumento somado: conforme previsão dos arts. 513 e 535 do CPC, da sentença é possível manejar inconformidade por meio de apelação e/ou de embargos de declaração, com o que, fácil perceber, não se cogita o ato sentencial como aquele, por si só, apto a pôr termo ao processo se e quando ofertado recurso.
Ainda na abordagem do superado conceito legal, empregava a afastada redação do § 1° do art. 162 o verbo decidir. Ocorre que nem sempre será o juiz, nas cogitadas hipóteses de resolução do mérito, quem colocará fim à lide. Para melhor compreensão, importante a busca sintética do que venha a ser o mérito do processo de conhecimento.
A parte autora, exercendo seu direito de ação, vale-se do processo de conhecimento para provocar atuação do Estado prestador jurisdicional com a finalidade de alcançar composição da lide. Nos cinco incisos do art. 269 do CPC, cuja redação do caput é “Haverá resolução de mérito”, estão presentes situações nas quais se encontra o final do litígio, seja pelo juiz (inciso I), pelas partes (incisos II, III e V) ou pelo simples decurso do tempo (inciso IV).
Mais ainda: a Lei n° 10.352/01 acrescentou o § 3° ao art. 515 do CPC, com a seguinte redação: “Nos casos de extinção do processo sem julgamento do mérito (art. 267), o tribunal pode julgar desde logo a lide, (...).” Portanto, o próprio Código de Processo Civil, com a vigência do acima parcialmente reproduzido dispositivo, passou a estampar conceito de mérito, qual seja, lide, na medida em que chegando a tribunal processo sentenciado sem solução do mérito, a corte recursal poderá, presentes os requisitos para tanto, resolver o mérito, eliminando a lide até então intocada pela sentença puramente extintiva.
Resumindo: se, como pretendemos demonstrar, o mérito do processo de conhecimento for alcançado quando em seu contexto restar eliminada a lide, consultados os casos do art. 269 do CPC, encontramos que apenas na hipótese do inciso I estará o juiz decidindo, nos demais quatro tem-se fórmulas outras de apagamento do conflito gerador da ação judicializada.
Por tais razões, em que pese algo vago, adequado o atual conceito legal de sentença trazido pela Lei 11.232/2005, que modificou a redação do §1 º do artigo 162 do CPC: “§ 1º Sentença é o ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267 e 269 desta Lei.”
Observe-se, pois, que suprimida idéia de extinção, de fim do processo de conhecimento (a sentença deixou de ser ato que, necessariamente, representará o encerramento do processo), bem como aquela segundo a qual o atingimento do mérito (resolução da lide) será, necessariamente, resultado de decisão do juiz.
Outra questão interessante no tratamento do tema diz respeito ao conteúdo decisório da sentença, à natureza das questões examinadas e deliberadas pelo juiz. Como visto, pelo atual § 1º do artigo 162 do CPC, implica a sentença em alguma das situações previstas artigos 267 e 269 do mesmo diploma legal. Todavia, não é incomum vir no documento escrito e assinado pelo juiz denominado sentença, tratadas e decididas outras matérias que não as previstas nos dois artigos referidos.
Para exercício: não raro, deixa o juiz para analisar e deferir o pedido de assistência judiciária gratuita no momento de proferir a sentença; ora, ao consignar no documento designado sentença o exame da questão – gratuidade, este tópico (decisão sobre concessão ou não da gratuidade), que não compõe o rol das hipóteses dos arts. 267 e 269 do CPC, tendo natureza interlocutória, acaba vindo ao mundo jurídico processual formalmente como parte da sentença.
Outro caso também freqüente é o do deferimento de antecipação de tutela no próprio texto da sentença. Esta concentrará, assim, além da decisão da lide (mérito), também conteúdo interlocutório que, por isso, igualmente escapa aos casos dos arts. 267 e 269 do CPC. Ainda, sempre que o juiz decidir julgar o feito no estado em que se encontra, de modo antecipado, entendendo desnecessária produção de outras provas (art. 330, I, do CPC), tanto afirmando no próprio texto da sentença, com o que indeferindo formulações probatórias que tenham as partes postulado.
Em tais situações, está-se diante de sentenças mistas, aquelas que têm conteúdo próprio de sentença e trazem em seu bojo, ainda, decisões de natureza interlocutória.
Estabelecidas tais premissas, como vem sendo afirmado por OVÍDIO ARAÚJO BAPTISTA DA SILVA faz mais de década e meia sob a designação de sentença parcial , preferindo WALTER VECHIATO JÚNIOR tipificá-la como sentença intermediária , permitido vislumbrar a possibilidade de prolação, em um mesmo processo de conhecimento (por exemplo, se presentes ações cumuladas pela reunião de pedidos), de mais de uma sentença, cada qual proferida a determinado tempo.
O Código, neste sentido, desde o advento da Lei n° 10.444/02, traz situação perfeitamente enquadrável no que aqui se examina. O § 6º do art. 273 do CPC, sob a equivocada designação de antecipação de tutela, informa que tanto poderá ser concedido “quando um ou mais dos pedidos cumulados, ou parcela deles, mostrar-se incontroverso”. Embora apresentando um conceito aberto (o que vem a ser, exatamente, um pedido incontroverso?), dúvida não há de que, havendo cumulação de pedidos, e o réu, em sua resposta, reconhecer a procedência de um ou alguns, mas não de todos, haverá porção incontroversa a autorizar a aparente antecipação da tutela.
Mas... o reconhecimento do pedido está tipificado no inciso II do art. 269 do CPC como hipótese de resolução de mérito! E com razão assim consta: reconhecendo o réu um ou alguns dos pedidos, as lides a eles correspondentes estarão encerradas. Como, em casos como estes, admitir se esteja a antecipar tutela se tal instituto tem, dentre suas características, a da provisoriedade (§4º do art. 273 do CPC)? Quando o réu reconhece a procedência de um ou alguns, mas não de todos os pedidos, tornando-o(s) incontroverso(s), haverá sentença parcial com resolução de mérito (art. 269, II, do CPC), exigível imediata e definitivamente a prestação de satisfação do que reconhecido em sede de cumprimento com caráter definitivo , seguindo o feito para solução das demais lides não compostas. Semelhança existe no acolhimento parcial, pelo juiz, de tese defensiva de prescrição. Em decisão aparentemente interlocutória, vem pronunciada prescrição de porção do crédito exigido em uma ação de cobrança, com determinação de prosseguimento da demanda de conhecimento em relação à parte outra não atingida pelo decurso do tempo. Há aqui, também, sentença parcial com resolução de mérito, nos termos do inciso IV do art. 269 do CPC.
Também bastante comum, em especial no direito de família, várias ações cumuladas em único processo que versem, ilustrando, sobre pedidos de separação litigiosa, guarda dos filhos, regulamentação de visitas dos filhos, partilha de bens, prestação alimentar entre os cônjuges e em favor da prole. Reunido o casal em audiência de tentativa de conciliação, o acordo alcançado se limita aos pleitos de separação e guarda de suas crianças, restando para discussão e julgamento futuro os demais temas controvertidos. Não se pode admitir dúvida de que o juízo, consultado o órgão do Ministério Público, tratará, na própria cerimônia, de homologar, por sentença com resolução do mérito (art. 269, III, do CPC), a conversão da separação litigiosa em consensual, na mesma oportunidade chancelando, por meio de sentença (ainda art. 269, III, do CPC), o acordo quanto à guarda dos filhos, determinando seqüência do processo, em sede de instrução, das pendências litigiosas.
Para concluir a relação de exemplos: em determinado processo de conhecimento, o autor demanda contra vários réus. Um dos litisconsortes passivos questiona sua ilegitimidade para a causa. O juiz, saneando o feito em gabinete, acolhe o pedido de exclusão de tal demandado, ordenando seguimento do processo contra os demais. A base legal para a exclusão do réu ilegítimo está no art. 267, VI, do CPC – ausência de condições da ação. Retomada a atual redação do § 1° do art. 162 do Código (“Sentença é ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267 e 269 desta Lei”), outra não poderá ser a conclusão senão a de que o ato que afastou um dos litisconsortes, determinando curso ao processo com os remanescentes sujeitos parciais, é (e sempre foi!) uma sentença sem resolução de mérito . Tanto assim que, historicamente, em casos como o da ilustração, os juízes condenam o autor a pagar, em favor dos advogados do litisconsorte excluído, verba honorária conforme previsão do art. 20 do CPC – cuja redação tem, em seu início, informação de que sua aplicação diz para com o ato sentencial...
E qual a repercussão de tal identificação, vale marcar, de se estar diante de sentenças parciais? Resposta: a escolha do recurso adequado ao ataque de tais atos judiciais.
Primeira premissa: mesmo sem encerrar o processo, haverá sentença se o ato judicial implicar algum dos casos previstos nos arts. 267 e 269 do CPC; segunda premissa: na forma do art. 513 do CPC, “Da sentença caberá apelação (arts. 267 e 269)”; conclusão lógica: independentemente ou não do encerramento do processo, haverá sentença se o ato judicial implicar algum dos casos previstos nos arts. 267 e 269 do CPC, cabendo ao sucumbente exercitar direito ao recurso pela via da apelação.
A melhor doutrina nacional, sem deixar de reconhecer a natureza eminentemente sentencial das decisões que, embora não pondo termo ao processo, impliquem incidência dos casos dos arts. 267 e 269 do CPC, afirma que o ataque àquelas deve dar-se por meio do agravo de instrumento e não pela via da apelação ou, então, considera como cabível o agravo de instrumento com efeito de apelação – isso pela dificuldade que o emprego da apelação e seu ritual acarretariam. Terceira corrente, diante de reconhecida dúvida quanto a qual recurso deva ser utilizado (dúvida que, está claro, passa pela possibilidade de aceitação, ao menos em tese, do emprego da apelação...), pugna pela aplicação do princípio da fungibilidade até pacificação jurisprudencial.
Adotada (como deve ser, afirmamos) a apelação em tais casos, como cogitar de seu emprego (que reclama remessa dos autos ao tribunal), se permanece porção litigiosa, em maior ou menor grau, para conhecimento e decisão posteriores? Tal prática consagraria retardo na prestação jurisdicional, porque o recebimento da apelação (exceto nos casos expressos art. 520, I a VII, do CPC) resultaria não apenas na suspensão dos efeitos da decisão – ampliando tais efeitos para a tramitação do processo no primeiro grau que somente poderia ser retomado depois do retorno do caderno à instância originária – superados, alvitra-se, os julgamentos da apelação e de possíveis embargos declaratórios e/ou embargos infringentes e/ou recurso extraordinário e/ou recurso especial e, ainda, destaque para novo agravo de instrumento contra a denegação de seguimento dos remédios endereçados ao Supremo Tribunal Federal e ao Superior Tribunal de Justiça.
Ocorre que a própria lei outorga maiores vantagens aos litigantes no uso da apelação do que no manejo do agravo de instrumento. Assim está no art. 520, caput, do CPC, ser regra o recebimento da apelação no efeito suspensivo, enquanto no agravo de instrumento tanto poderá ou não ser alcançado conforme decisão irrecorrível do relator (art. 527, III e parágrafo único, do CPC; art. 558 do CPC).
A possibilidade de sustentação oral das motivações recursais é admitida na apelação e vedada no agravo de instrumento (art. 554 do CPC). Eventual recurso extraordinário ou recurso especial que tiver sido interposto “contra decisão interlocutória em processo de conhecimento, (...) ficará retido nos autos” (§ 3° do art. 542 do CPC), enquanto as mesmas espécies, se interpostas contra acórdãos que tenham julgado apelações, terão tramitação imediata, sem dependência de atos ou possibilidades futuras. Por fim, no julgamento da apelação prevê o art. 551 do CPC prévia submissão do feito a revisor, figura excluída em se tratando de agravo.
Dado que o inciso LV do art. 5° da Constituição Federal assegura “aos litigantes, em processo judicial, (...), o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”, têm as partes garantido, para si, o mais abrangente espectro recursal previsto em lei.
Consagrada a apelação como modalidade recursal para os casos de sentenças parciais – atos judiciais que implicam alguma das hipóteses dos arts. 267 e 269 do CPC, com manutenção de quantidade de matéria litigiosa para conhecimento e decisão adiante no tempo – aparentemente permaneceria presente o problema consistente em compatibilizar a tramitação do apelo com o natural e imediato seguimento do processo de conhecimento no que tange às demais questões litigiosas ainda não resolvidas .
Adotado que fosse entendimento da possibilidade de veiculação da inconformidade por meio de agravo com efeito de apelação, dificilmente, na prática, obteria o recorrente sucesso no convencimento do tribunal no sentido de ser autorizado a proferir sustentação oral, fazer-se necessária a atuação de revisor, suceder desretenção de recurso extraordinário e de recurso especial etc., providências e garantias ínsitas ao apelo.
Há posição interessante e que, se na compreensão do articulista, não corresponde à melhor solução, ao menos aponta caminho suficientemente claro para tramitação da apelação correspondente à sentença parcial. Em inovadora experiência, houve por bem o juízo de uma das Varas dos Feitos da Fazenda Pública do Foro Central de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, proferir decisão consignada em documento denominado sentença parcial, na qual o magistrado, invocando o princípio constitucional da duração razoável do processo, a possibilidade de sentenças que não põem termo ao processo no caso da falsa antecipação de tutela do § 6° do art. 273 do CPC e a então alteração legislativa do conceito de sentença que se avizinhava em seu início de vigência, decidiu um dos pedidos, mantendo em aberto instrução e julgamento futuros do outro.
Por meio de tal sentença parcial, proferida em demanda de conhecimento de natureza eminentemente condenatória e que trazia cumulados pedidos de indenização por danos materiais e de indenização por danos morais, entendendo suficientemente instruída a primeira discussão (danos materiais), tanto decidiu o juiz pela parcial procedência do pedido, aplicando divisão dos ônus sucumbenciais nos moldes do art. 21 do CPC. Na mesma peça, procedeu ao saneamento da porção litigiosa não resolvida deferindo prova oral para produção em audiência que, naquele ato escrito, designou.
Diante do inusitado, mais ainda constou da sentença parcial: esclareceu seu prolator que efetivamente havia sentenciado – mesmo não pondo fim ao processo – e que, caso inconformadas as partes (recorde-se ter havido sucumbência recíproca), deveriam as correspondentes insubordinações ser veiculadas por meio de recursos de apelação, expressamente mencionando a previsão do art. 513 do CPC. Continuando, alinhavou que, necessário o seguimento do processo para instrução e resolução da lide vinculada aos alegados danos morais, não haveria como, já designada audiência, determinar simplesmente a remessa dos autos ao Tribunal de Justiça. Assim, ordenou à escrivania extração de cópias de determinadas peças para formação de autos suplementares parciais, isto caso viesse(m) apelação(ões) contra a sentença parcial, somente depois de produzido o segundo caderno (resultado das cópias) acontecendo envio dos autos à superior instância.
A divergência com a solução acima narrada está, tão-somente, em que mais apropriado e econômico que a porção documental a ser remetida ao tribunal seja aquela limitada ao que já decidido, permanecendo os autos originais no primeiro grau para as demais tarefas de instrução e julgamento. Assim, na esteira do que sugerido por JOSÉ MARIA ROSA TESHEINER , o que subiria à instância recursal ordinária seriam as cópias das suficientes peças dos autos, na forma de um instrumento dedicado, apenas e exclusivamente, para exame do apelo e desempenho de eventuais recursos que possam vir a ser ofertados depois do julgamento da apelação – isso sem esquecer que a oportunidade da liquidação e cumprimento da sentença, seja de forma provisória ou definitiva, igualmente se processará no volume formado e destacado.
E assim já se tem exercitado na prática forense: em determinada demanda promovida contra dois réus, em gabinete foi acolhida tese de ilegitimidade passiva de um deles, restando esse excluído do processo com fulcro no art. 267, VI, do CPC – logo, consoante a nova dicção legal do § 1° do art. 162, por sentença. Diante de omissão da decisão quanto à verba honorária sucumbencial em proveito dos advogados do litisconsorte afastado, foram opostos embargos de declaração, ao final acolhidos, resultando em arbitramento de remuneração compreendida como aviltante ao exercício profissional (não é demasiado recordar que o art. 20 do CPC, ao prever condenação do sucumbente, tem início de redação nos seguintes termos: “A sentença condenará o vencido ...”).
Pois bem: invocada toda linha argumentativa acima exposta, tratou o réu excluído de formular recurso de apelação (ao invés de, como até então tradicionalmente se fazia, usar do agravo). Houve por bem o juízo a quo receber o recurso determinando seu regular processamento com a formação do instrumento de apelação, instrumento esse que foi regularmente remetido ao Tribunal de Justiça. Na corte recursal, proferida sustentação oral defendendo o uso da apelação por instrumento, de forma unânime houve admissão e provimento do recurso, restando então aceita, sem qualquer dificuldade, o modo de tramitação peculiar da apelação manejada contra sentença parcial.
Outro exemplo do emprego da apelação por instrumento emergiu de recente precedente, gerado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região ao examinar agravo de instrumento ofertado pela parte autora de processo de conhecimento que apresentava pedidos cumulados, um deles de plano julgado improcedente, conforme previsão do art. 285-A do CPC. Houve por bem a Sexta Turma da Corte prover parcialmente o agravo de instrumento “para determinar a cisão processual, com o prosseguimento do feito relativamente ao pedido cuja citação já foi determinada pelo juízo a quo e formação de novo instrumento para que seja viabilizado o processamento do apelo”.
Na medida em que vimos, em salas de aula e em palestras, difundindo tal experiência, são apresentadas, modo repetido, algumas críticas à idéia e a seu uso prático. Óbice comumente articulado está no fato de que a apelação por instrumento feriria o princípio da taxatividade. Com a devida vênia, não há criação de recurso novo, mas, sim, emprego da apelação consagrada no Código de Processo Civil com estreita obediência a toda sorte de seus pressupostos –ofertada por escrito em quinze dias perante o juízo que proferiu a sentença, acompanhada da prova do preparo, recebida nos efeitos previstos no art. 520 do CPC, com oportunidade de resposta em quinze dias, distribuição a relator, atuação de revisor, possibilidade de sustentação oral etc. Apenas o que se agrega ao ritual ortodoxo é a remessa do recurso na forma de fotocópias em caderno próprio, condição que em nada descaracteriza a apelação.
Outro apontado problema que tornaria inviável a remessa da apelação ao tribunal por meio de autos (instrumento) em separado, repousaria na falta de disciplina legal acerca da responsabilidade pela iniciativa de sua formação. O caminho pacificador está no próprio juízo, ao receber a apelação, abraçar a tarefa – o que, aliás, se deu na antes indicada sentença parcial de origem de uma das Varas da Fazenda de Porto Alegre (com a diferença de que lá a ordem foi de formação de instrumento – autos suplementares – que permaneceriam na origem, remetendo-se os autos originais ao Tribunal de Justiça). Também se poderia pensar na adoção do critério que preside a composição documental do agravo de instrumento (art. 525 do CPC), cumprindo ao apelante fazer acompanhar as razões recursais de cópias suficientes para verificação, pelo órgão ad quem, do conteúdo e forma da decisão apelada, da tempestividade do emprego do meio de inconformidade (respectiva certidão de intimação) e das procurações outorgadas pelos partícipes da relação litigiosa judicializada, cuidando, conforme seu interesse, de também acostar reprodução de outras peças imprescindíveis à compreensão do que quer ver rediscutido e novamente decidido; ao apelado, pelo mesmo exercício de utilização subsidiária do agravo de instrumento (inciso V do art. 527 do CPC), momento para juntada das cópias, conforme seu entendimento, necessárias para sustentação da porção julgada, o prazo de resposta ao apelo. Ou, ainda, para formação do caderno de apelação, o norte dado pelo § 3° do art. 475-O do CPC, qual seja, o do modo de paginação da Carta de Sentença, apenas agregada, para exame do cumprimento do quesito tempestividade, de certidão da intimação das partes da sentença sob ataque. O resultado de uma ou outra modalidade aponta equivalência. Tais práticas, tanto deve ficar claro, lançam sobre as partes responsabilidade que a lei não lhes confere (qual seja, a de providenciar em fotocópias para recebimento e exame de apelação – e aqui necessário reconhecer que o apelo mal instruído não poderá ser conhecido...), pelo que sua adoção, em vez da ordem judicial de extração de peças, certamente depende de alteração no texto do Código de Processo Civil.
Preocupa parcela dos que não cogitam a apelação como forma de ataque às sentenças parciais a possibilidade de resultar, no tribunal, julgamento pela cassação ou reforma da decisão, com o que muito provavelmente alguns, vários ou todos os atos praticados na origem, depois de publicada a sentença parcial, restariam atingidos e gravados supervenientemente de invalidade e necessidade de onerosa repetição. Nada de incomum, extravagante ou novo que tenha surgido com o emprego da apelação em separado: redargüimos recordando que tanto igualmente pode acontecer como conseqüência do provimento de agravo de instrumento que tenha sido recebido apenas no efeito devolutivo e, também, com o acolhimento de recurso especial e/ou extraordinário (que, é regra, transitam sem efeito suspensivo – § 2° do art. 542 do CPC), nesse último caso quando em curso execução provisória.
Ainda no campo das objeções à apelação por instrumento, aspecto exclusivamente subjetivo: acolhida a idéia de sentenças parciais (e, cremos, não se pode mais pensar em escolher entre sua existência ou inexistência, porque sentenças parciais, como demonstrado, são realidade afirmada em lei...), presente a possibilidade de um único processo de conhecimento gerar, trazendo ele ações cumuladas pelo cúmulo de pedidos – esses independentes entre si –, tantas sentenças em tempos distintos quantos fossem os pedidos, provocando na rotina forense de primeiro e segundo grau embaraços e dificuldades de administração de tempo, dedicação dos magistrados e espaços em pautas. Segundo tal pensamento, extremamente complicado aos tribunais o recebimento, a partir de um único processo, de várias apelações destacadas e remetidas em momentos distintos. Como possível preservar, assim, a unicidade do julgado?
Com a devida vênia, tal posição parece ignorar que no modelo apontado (em um único processo, ações cumuladas por pedidos independentes entre si – caso bastante freqüente), bem poderia ter a parte autora optado por, ao invés de reunir as ações, promovê-las em separado, fato que, por si só, inevitavelmente geraria tantas sentenças e correspondentes tantas apelações quantas seriam esperadas na hipótese de, na cumulação, realizar-se a cisão que dê azo a sentenças parciais.
Mas, se tal porção da crítica busca esteio nas teóricas alegadas dificuldades práticas – especialmente interna aos tribunais –, impossível deixar de considerar que talvez o que se observe, na verdadeira prática dos gabinetes, seja maior facilidade de trabalho no enfrentamento, em separado, trazido pela apelação operada contra sentença parcial, de um, ou poucos, de vários temas e pedidos emaranhados.
Mais ainda: também passa ao largo da compreensão aqui repelida que é obrigação do Estado, por meio do Poder Judiciário, logo que possível prestar tutela jurisdicional eliminando a lide, conforme antes invocada garantia constitucional da duração razoável do processo. Não pode o juiz escolher entre desde logo resolver o que já pode ser resolvido, preocupando-se com acréscimo de carga de trabalho . Mas... admitamos, alimentando a discussão, que não se cogite apelar e sim agravar, por instrumento, da decisão isolada e que deixou remanescer conteúdo litigioso para o tradicional e único sentenciamento. De igual forma, o tema agravado chegaria, em separado, ao tribunal, apenas retiradas das partes prerrogativas inerentes à apelação!
Tudo mais tranqüilo se mostra, se houver alguma dedicação de tempo do legislador para agregar ao art. 514 do CPC regulamentação do emprego da apelação contra as sentenças parciais.
Na redação atual do art. 514:
“Art. 514. A apelação, interposta por petição dirigida ao juiz, conterá:
I – os nomes e qualificações das partes;
II – os fundamentos de fato e de direito;
III – o pedido de nova decisão.”
Este pequeno estudo sugere o acréscimo de três parágrafos ao art. 514, como segue:
“§ 1°. Na hipótese de sentença parcial, o apelante dirigirá a petição diretamente ao tribunal competente, atendendo aos requisitos do caput deste artigo, também informando o nome e endereço completo dos advogados constantes do processo e, no prazo de três (3) dias fará juntar, na origem, cópia das razões da apelação, do comprovante de sua interposição e relação das peças que a instruíram, pena de não conhecimento.”
“§ 2°. A apelação a que se refere o parágrafo anterior será obrigatoriamente instruída de cópias da petição inicial, da resposta, da sentença parcial, da certidão da intimação das partes, de eventuais embargos de declaração, sua decisão e certidão da respectiva intimação, do comprovante do preparo, se exigido, e de todas e quaisquer peças que o recorrente reputar úteis à compreensão e julgamento.”
“§ 3°. Deficiente a formação do instrumento, porque faltantes peças obrigatórias ou ausentes aquelas que possibilitem formação da compreensão acerca da controvérsia para efeito de julgamento, a apelação será de imediato não conhecida (art. 557, caput).”
Na mesma linha, necessário modificar, mediante acréscimo, o que consta no art. 518 do Código:
“Art. 518. Interposta a apelação, o juiz, declarando os efeitos em que a recebe, mandará dar vista ao apelado para responder.
§ 1°. O juiz não receberá o recurso de apelação quando a sentença estiver em conformidade com súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo Tribunal Federal;
§ 2°. Apresentada a resposta, é facultado ao juiz, em cinco dias, o reexame dos pressupostos de admissibilidade do recurso.”
A proposta, aqui, é de alteração nos parágrafos ao art. 518 que passariam a ter o conteúdo abaixo apresentado:
“§ 1°. Tratando-se da apelação ofertada contra sentença parcial (§ 1° do art. 514) o relator, se não for hipótese de incidência do art. 557, declarará os efeitos em que a recebe e, na seqüência, determinará intimação do apelado, por meio de seus procuradores, para responder e, querendo, juntar cópias de peças dos autos que entender necessárias à formação da convicção do órgão julgador recursal.
§ 2°. O juiz ou relator não receberá o recurso de apelação quando a sentença estiver em conformidade com súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo Tribunal Federal;
§ 3°. Apresentada a resposta, é facultado ao juiz ou relator, em cinco dias, o reexame dos pressupostos de admissibilidade do recurso.”
Tudo o quanto até aqui se escreveu ocupa, nas lides forenses, prática que certamente não terá freqüência diária. Havendo estreita dependência entre os temas processuais e/ou litigiosos submetidos a processo de conhecimento, praticamente impossível cogitar-se a prolação de sentença parcial e, via de resultado, da apelação por instrumento. Portanto, a possibilidade em tela deve ser pensada e praticada cum grano salis. Como bem ponderado por WAMBIER, WAMBIER e MEDINA: “(...) o julgamento fracionado da lide deve ser evitado pelo juiz, que somente deve-se valer deste mecanismo nos casos em que a resolução parcial do objeto do processo se mostre evidentemente mais vantajosa para a realização da tutela jurisdicional, apesar dos riscos de, provido o recurso interposto contra a decisão que tiver julgado parte da lide, se perderem todos os atos processuais realizados até então”.
Por fim, considerado o atual conceito legal de sentença, com imprescindível desapego ao meio pelo qual transita a decisão ou efeito dela gerado (novo foco: sentença é ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267 e 269 do CPC), por questão de coerência não mais se poderá, como majoritariamente vinham entendendo doutrina e jurisprudência, admitir como infringido o princípio da unirrecorribilidade com emprego de apelação e agravo de instrumento se, no documento denominado sentença, vier o juiz aplicar quaisquer dos incisos dos arts. 267 e/ou 269 do CPC e, também, decidir extravagantemente a eles, abordando e ponderando sobre temas interlocutórios. A porção sentença, do documento que serviu de veículo para distintas naturezas de atos do juiz, merecerá eventual ataque por meio da apelação, enquanto a quantidade interlocutória terá de ter espaço recursal por meio de agravo, solucionadas restando, pensamos, uma série grande de dificuldades práticas que o emprego exclusivo da apelação representa – como, por exemplo, impossibilidade imediata, no que diz com o conteúdo interlocutório, de obtenção de efeito suspensivo ou da antecipação parcial dos efeitos da tutela recursal pelo relator (art. 527, III, do CPC).
THEODORO JÚNIOR, Humberto. As novas reformas do Código de Processo Civil, Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 3.
Respectivamente Leis n°s 8.952/94, 10.444/02, 11.232/05 e, novamente, 10.444/02.
Como esclarecido por Araken de Assis (Cumprimento da sentença, Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 20), a extinção do processo não se dá pela própria sentença, mas, sim, pelo esgotamento das vias impugnativas.
Em sentido contrário, tecendo críticas à solução legislativa formadora do atual conceito de sentença, Luis Guilherme Aidar Bondioli (O novo CPC: a terceira etapa da reforma, Saraiva: São Paulo, 2006, p. 42-43) reclama que: “A rotulação por meio de remissão está longe de ser um primor do ponto de vista técnico e reflete vacilação na conceituação”, arrematando que “sentença é aquilo que o legislador diz ser sentença".
SILVA, Ovídio Araújo Baptista da. Da sentença liminar à nulidade da sentença, Rio de Janeiro: Forense, 2001, p. 03-24.
VECHIATO JÚNIOR, Walter. Processo civil, São Paulo: Juarez de Oliveira, 2006, p. 68-69).
Em sentido diametralmente oposto estão Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart (Curso de Processo Civil, v. 2, 6ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 403-404): “O ato judicial que implica alguma das situações do art. 269 somente pode ser definido como sentença quando extingue o processo ou quando encerra a fase de conhecimento. Embora isso não esteja expresso nos novos arts. 162, § 1°, e 269, lê-se no § 2° do art. 162 que ‘decisão interlocutória é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve questão incidente’. Ora, sempre houve acordo no sentido de que o ato judicial que concede tutela antecipatória, por exemplo, julga o mérito, sem deixar de ser uma decisão interlocutória. O ato judicial que pronuncia a decadência ou a prescrição de um dos pedidos cumulados, embora também trate do mérito, igualmente sempre foi compreendido como decisão interlocutória.” Com semelhante pensar, Humberto Theodoro Júnior (obra citada, p. 5)
SILVA, Jaqueline Mielke; XAVIER, José Tadeu Neves. Reforma do processo civil, Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2006, p. 47.
Na correta lição de José Joaquim Calmon de Passos (Comentários ao Código de Processo Civil, v. III, 9ª ed., Forense: Rio de Janeiro, 2004, p. 72): “Daí sustentar que, na hipótese do § 6°, já que admitida a cindibilidade, não se antecipa, sim defere-se em caráter definitivo, (...). (...) não entendo como não se deva julgar de logo procedente o pedido, prosseguindo o feito quanto ao controvertido. Exigir-se de quem já tem seu direito certificado de modo firme a prestação de caução, submetê-lo ao risco de revogação ou modificação me parece algo incompatível. Daí ler o § 6° como dizendo que havendo um ou mais pedidos cumulados que se tenham tornado incontroversos, ou quando incontroversa seja alguma parcela do pedido, nessa parte deve haver a satisfação do autor com caráter de definitividade, (...).”
Ainda sob influência do anterior conceito legal de sentença, Cássio Scarpinella Bueno (Tutela antecipada, São Paulo: Saraiva, 2005, p. 53) afirmava que o ato judicial na forma do § 6° do art. 273 do CPC substanciava sentença sob forma de decisão interlocutória.
Aqui, não se pretende a discussão crítica acerca da Teoria Eclética de Enrico Tullio Liebmann quanto a serem ou não as condições da ação hipóteses também de mérito.
Sugere José Ricardo do Nascimento Varejão (As classificações, a Lei 11.232;2005 e o “novo” conceito de sentença, em Aspectos polêmicos da nova execução – 3, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, coord. Teresa Arruda Alvim Wambier, p. 387) que as decisões que implicam a atuação das hipóteses dos arts. 267 e 269 em meio ao processo mereçam catálogo à parte, designando-as híbridas.
Dentre tantos, Teresa Arruda Alvim Wambier (Os agravos no CPC brasileiro, 4ª ed. São Paulo: RT, 2006, p. 103 e seguintes); Daniel Ustárroz e Sérgio Gilberto Porto (Manual dos recursos cíveis, Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006, p. 79); opção apontada por Jaqueline Mielke Silva e José Tadeu Neves Xavier (obra citada, p. 53), à falta de recurso próprio que, para tal situação, deveria ser criado.
Como prefere Daniel Francisco Mitidiero (Processo civil e Estado constitucional, Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007, p. 53).
Nessa trilha: Eduardo Arruda Alvim (O perfil da sentença e suas repercussões na Lei n° 11.232/05, em A nova reforma processual, coord. Gustavo Santana Nogueira, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, p. 64.), Cassio Scarpinella Bueno (A nova etapa da reforma do Código de Processo Civil, São Paulo: Saraiva, 2006, p. 20-21), Luis Guilherme Aidar Bondioli (obra citada, p. 44), Daniel Amorim Assumpção Neves (Reforma do CPC, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p. 85), José Ricardo do Nascimento Varejão (artigo citado, p. 394).
Flávio Cheim Jorge, Fredie Didier Jr. e Marcelo Abelha Rodrigues (A terceira etapa da reforma processual civil, São Paulo: Saraiva, 2006, p. 70), peremptoriamente, não vêem como sentença as hipóteses dos arts. 267 e 269 do CPC que não tragam, como efeito, a extinção do procedimento, assim merecendo catálogo de decisões interlocutórias atacáveis por agravo.
BUENO, Cassio Scarpinella. Obra citada, p. 18.
Proferida em 14 de março de 2006 pelo Juiz de Direito Pedro Luiz Pozza nos autos do processo tombado sob nº 001/10522676506, 5ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A sentença pode ser conhecida em sua íntegra mediante consulta, pelo indicado número do processo, via rede mundial de computadores, no endereço www.tj.rs.gov.br.
TESHEINER, José Maria Rosa (coord.). Nova sistemática processual civil, 2ª ed., Caxias do Sul: Plenum, 2006, p. 44.
Processo tombado sob nº 001/10522529864, perante a Vara de Família e Sucessões do Foro Regional de Alto Petrópolis, Comarca de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Este o conteúdo da decisão que recebeu a apelação e a fez processar por instrumento: “Rh. Visando não tumultuar o processo, em prejuízo da parte autora, determino sejam extraídas cópias das principais peças dos autos, remetendo-se ao TJRS, após diligências legais, para apreciação do Recurso de Apelação, certificando-se nos autos. A medida se impõe, pois, não se insurge o apelante à sua exclusão da demanda, nem demais partes, mas apenas no que pertine à verba honorária, sendo procrastinatório ao autor a remessa de todo o processo. Recebo recurso do réu, (...), no efeito legal. À parte apelada para contra-razões. Após, remetam-se as cópias, na forma determinada, ao TJRS. Cumpram-se, então, demais diligências contidas nas fls. 59/60. Intimem-se. Porto Alegre, 12 de setembro de 2006.”
Apelação que recebeu nº 70018346528, provida em 29 de março de 2007, pela 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. O acórdão pode ser conhecido em sua íntegra mediante consulta, pelo indicado número do recurso, via rede mundial de computadores, no endereço www.tj.rs.gov.br
Agravo de Instrumento que recebeu nº 2006.04.00.031612-1/RS, parcialmente provido em 13 de dezembro de 2006. O acórdão pode ser conhecido em sua íntegra mediante consulta, via rede mundial de computadores, pelo indicado número do recurso, no endereço www.trf4.gov.br/trf4
Como afirmado por Nelson Nery Júnior (Teoria Geral dos Recursos, 6ª ed., São Paulo: RT, 2004, p. 478): “Verifica-se o efeito expansivo objetivo externo quando é provido recurso de agravo de instrumento. Como o agravo de regra não tem efeito suspensivo, ainda que interposto não paralisa o curso do procedimento. Provido o agravo pelo tribunal ad quem, todos os atos processuais praticados depois de sua interposição, que com a nova decisão sejam incompatíveis, são, ipso facto considerados sem efeito, devendo ser renovados. O mesmo pode-se dizer quanto aos atos praticados no curso da execução provisória da sentença, caso seja provido recurso recebido apenas no efeito devolutivo (CPC, 587), atos esses que ficam sem efeito conforme expressa determinação do CPC 588 III. Quando o efeito expansivo se dá relativamente a outros atos praticados no processo, e não apenas ao mesmo ato impugnado, diz-se que se trata de efeito expansivo externo.”
CHIOVENDA, Giusepe. Instituições de direito processual civil, v. I, Campinas: Bookseller, 1998, p. 442-444.
Assim, sobre a garantia da duração razoável do processo, antes escrevemos (Improbidade processual – comportamento das partes e de seus procuradores no processo civil, Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 109-110): “A Emenda Constitucional n° 45, promulgada em 08 de dezembro de 2004, acresceu o inciso LXXVIII ao art. 5° da Carta Magna, assegurando a todos, no âmbito judicial e administrativo, o direito à razoável duração do processo, bem como os meios que garantam sua célere tramitação. Norma que institui princípio que constitui aspiração política ou programática ou idealista traz um conceito indeterminado ou aberto, um novo direito fundamental dentro do campo do direito constitucional processual, tem sido objeto de críticas por tratar-se de uma cláusula aberta, de pouco efeito prático. (...), temos que a norma somente encontrará efetiva aplicação se vier acompanhada de mecanismos processuais capazes de propiciá-la (por meio de reforma processual infraconstitucional oferecendo soluções hábeis à desburocratização e simplificação do processo) e de melhor estruturação quantitativa e qualitativa do Poder Judiciário.
Embora manifestando entendimento segundo o qual inviáveis as sentenças parciais, Daniel Amorim Assumpção Neves (obra citada, p. 84) curva-se à eventual necessidade de tal ocorrência, em especial no caso de indeferimento liminar da reconvenção: “(...), mas é inegável que impedir uma decisão liminar do juiz, obstando o término de uma ação que não tem mínimas condições de prosseguimento, somente para resolver o problema da recorribilidade dessa decisão, passa a léguas da boa técnica processual. É como carregar um peso morto durante todo o desenvolvimento do processo...”
Obra citada, p. 38.
Assim, por vários, Cândido Rangel Dinamarco (Capítulos de Sentença, 2ª ed, São Paulo: Malheiros, 2006, p. 115.
Tal possibilidade é aventada por José Carlos Barbosa Moreira (Comentários ao Código de Processo Civil, 11ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 249) ao examinar o princípio da unirrecorribilidade ou singularidade ou unicidade do recurso: “Ele se manifesta, em primeiro lugar, pela impossibilidade de interpor-se mais de um recurso contra a mesma decisão (lato sensu). Na aplicação do princípio, contudo, há de ter-se em conta que, nas decisões objetivamente complexas, talvez se componham, no tocante a capítulos distintos, os requisitos de admissibilidade de recursos diferentes (...).”
Antes do advento da Lei n° 11.232/05 já sustentava Nelson Nery Júnior (obra citada, p. 122-125), ao comentar o princípio da singularidade, a possibilidade de o juiz, na audiência – portanto, sob ditado no documento denominado Termo de Audiência (art. 457 do CPC), em momentos distintos resolver questões interlocutórias para, em seguida, sentenciar, então sendo oponíveis recursos em separado de agravo e de apelação.
Em torno do prazo decadencial de invalidação de atos administrativos no exercício da autotutela administrativa. por Rafael Da Cás Maffini
Sumário: Introdução; I. Legalidade administrativa como postulado interpretativo; II. Autotutela administrativa; III. Artigo 54, da Lei nº 9.784/99 – Boa-fé como valor a ser ponderado com a legalidade na concretização da segurança jurídica; Conclusões
Introdução:
O Artigo 54, da Lei n° 9.784/99 prevê um prazo decadencial de cinco anos para o exercício do direito de a Administração Pública invalidar seus atos eivados de vícios de legalidade quando concederem efeitos favoráveis aos seus destinatários e estiverem os mesmos de boa-fé. Tal regra tem sua aplicabilidade projetada para toda a atividade administrativa de cunho decisório da Administração Pública Federal, não ficando adstrita tão-somente aos atos administrativos internos a um processo administrativo, como poderia sugerir a ementa do Diploma Legal referido.
Trata-se pois de uma verdadeira limitação à autotutela administrativa, porquanto tal regra presta-se a obstaculizar o poder-dever invalidatório da Administração Pública desde que implementadas as seguintes condições: a) ser o ato administrativo ampliativo; b) terem os destinatários dos atos obrado com boa-fé; c) o decurso de um lapso temporal superior a cinco anos, contados da prática do ato inválido ou, no caso de efeitos patrimoniais contínuos, da percepção do primeiro pagamento, consoante enunciado no Artigo 54, § 1°, da Lei n° 9.784/99.
Demais disso, o prazo decadencial em questão traz sobrejacente a relação necessária entre a legalidade administrativa (elemento formal do Estado de Direito e fundamento material da autotutela da Administração Pública) e a boa-fé ou proteção à confiança (também elemento formal do Estado de Direito), com vistas a um dos fins do Estado moderno, qual seja, a segurança jurídica (com a qual a boa-fé encontra tênue vinculação). Positivou-se pois na lei federal em comento, idéias desde há muito tratadas por Almiro do Couto e Silva , que, aliás, teve participação direta na elaboração do anteprojeto que resultou na Lei n° 9.784/99, sobretudo no que se referiu ao seu Capítulo XIV, pertinente à “anulação, revogação e convalidação” dos atos administrativos .
Não é fortuito, nem se pode considerar coincidência que, em ensaio publicado ainda no início de 1996, tivesse o ínclito e visionário autor asseverado que “o prazo de cinco anos, que é o prazo prescricional previsto na Lei da Ação Popular, seria, (...), razoável e adequado para que se operasse a sanação da invalidade e, por conseqüência, a preclusão ou decadência do direito e da pretensão de invalidar, salvo nos casos de má-fé dos interessados”, considerando, ao depois, que “dadas, porém, as resistências que, nesse particular, existem no nosso Direito (...) a matéria seria de lege ferenda. É tempo, na verdade, de editar-se norma legal instituindo prazo preclusivo do direito da Administração Pública a invalidar seus próprios atos administrativos, a fim de que se reforce, no nosso país, o princípio da segurança jurídica, que tem aqui um relevo modesto e desproporcionado, se posto em cotejo com o princípio da legalidade” .
Passou-se portanto, com o advento do preceito legal objeto do presente estudo, do estado “de lege ferenda” para uma realidade “de lege lata”. Curiosamente, todavia, demonstra-se o fato de que o princípio da legalidade ainda merece, por parte de alguns, aplicação totalizante e absoluta, numa verdadeira “falácia da legalidade”, em que a mesma é utilizada exatamente contra a sua principal finalidade, qual seja, a garantia de um Estado de Direito dotado de segurança jurídica . Surpreende ou ao menos deveria surpreender que as “resistências” apontadas acima por Almiro do Couto e Silva , verdadeiras refrações à aplicação do princípio da boa-fé no Direito Administrativo persistem mesmo diante da clareza da regra jurídica contida no Artigo 54, da Lei n° 9.784/99.
Por certo, não se pode mais cogitar de uma hermenêutica jurídica pautada pela parêmia “in claris cessat interpretatio”. Interpretar não é sinônimo de ler. Aproxima-se muito mais da idéia de construir ou, mais precisamente, reconstruir . Todavia, o extremo oposto também deve ser refutado. O texto literal do Artigo 54, da Lei n° 9.784/99 traz consigo regra jurídica dotada de uma clareza indiscutível, além de ser uma norma plenamente coadunada com o atual estágio dos princípios do Direito Administrativo, de forma que não mais se sustentam as interpretações que buscam restringir o seu significado normativo.
Considerar, à guisa de exemplo, que tal regra diz respeito tão-somente aos atos administrativos anuláveis, sendo inaplicável aos atos administrativo nulos; ou sustentar que tal regra valeria exclusivamente para atos administrativos viciados praticados após a vigência da lei, implica, em verdade, negar ao Artigo 54, da Lei Federal de Processos Administrativos seu real significado.
Por essa razão, o presente ensaio visa à análise do tema – prazo decadencial para a invalidação administrativa de atos viciados – com vistas ao enfrentamento de alguns tópicos que lhe são pertinentes, reconhecendo-se, por óbvio, a inesgotabilidade do tema, bem assim a recentidade do tratamento jurisprudencial e doutrinário sobre o mesmo. Diante disso, dois assuntos não serão tratados: a existência de um prazo decadencial de invalidação judicial dos atos administrativos e a análise das espécies de invalidade e a sua projeção no que tange à decadência em tela. Não se tratam de temas de rarefeita importância. Ao contrário, são assuntos deveras relevantes que, justamente por isso, demandam um estudo específico que transbordaria dos limites desse ensaio, já referidos acima.
I. Legalidade Administrativa como postulado interpretativo:
Costuma-se traduzir a legalidade administrativa, de importância inquestionável ao Direito Administrativo , através de uma parêmia celebrizada por Hely Lopes Meirelles segundo a qual “enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza” . Essa frase, em princípio, pode ser utilizada para se expressar didaticamente o significado da legalidade administrativa. Todavia, numa perspectiva em que se pretenda vislumbrar o verdadeiro significado jurídico da legalidade administrativa, há de se considerar que essa se desdobra em várias espécies normativas.
Com efeito, consoante ensina Humberto Ávila, não havendo correspondência biunívoca entre texto e norma , é possível depreender de um único dispositivo várias normas jurídicas . Ou seja, uma determinada passagem do texto constitucional pode traduzir-se em uma ou mais regras jurídicas, em um ou mais princípios jurídicos ou em um postulado normativo aplicativo, espécie normativa que será posteriormente melhor analisada e que tem direta relação com o presente ensaio.
Quanto à legalidade administrativa, é possível encontrar vários preceitos constitucionais que lhe conferem supedâneo, dentre os quais se permite colocar em destaque o Artigo 5°, II, pelo qual “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, bem como o próprio Artigo 37, caput, que indica a legalidade como importante vetor jurídico da função estatal de administração pública .
De tais dispositivos, todavia, não se pode pretender extrair um único significado normativo. Isso porque existem várias espécies de normas, cada uma das quais, dotadas de características normativo-estruturais diversas, bem como de misteres diversos na tarefa de orientação ao fenômeno da interpretação e aplicação do Direito. O tema da classificação das espécies de normas jurídicas revela-se central nas hodiernas discussões acerca da hermenêutica jurídica. Não há, do mesmo modo, trabalhos científicos sobre o Direito Público que não tratem de tal assunto, mesmo que não o façam de forma deliberada.
No presente trabalho, utilizam-se novamente os ensinamentos de Humberto Ávila para a classificação das espécies de normas jurídicas, lembrando-se que são alternativas inclusivas e coexistentes, ou seja, uma mesma norma pode se traduzir em regra, princípio ou postulado.
Na esteira do referido autor, as regras “são normas imediatamente retrospectivas e com pretensão de decidibilidade e abrangência, para cuja aplicação se exige a avaliação da correspondência, sempre centrada na finalidade que lhes dá suporte e nos princípios que lhe são axiologicamente sobrejacentes, entre a construção conceitual da descrição normativa e a construção conceitual dos fatos”, enquanto que os princípios seriam “normas imediatamente finalísticas, primariamente prospectivas e com pretensão de complementariedade e de parcialidade, para cuja aplicação demandam uma avaliação da correlação entre o estado de coisas a ser promovido e os efeitos decorrentes da conduta havida como necessária à sua promoção” .
Humberto Ávila acresce às categorias normativas acima referidas, cuja existência é amplamente reconhecida, uma outra espécie de norma, original em relação aos estudos que o precederam, qual seja, os postulados normativos aplicativos, que seriam “normas imediatamente metódicas, que estruturam a interpretação e aplicação de princípios e regras mediante a exigência, mais ou menos específica, de relações entre elementos com base em critérios” .
A legalidade administrativa consiste, em verdade, ora em uma regra, ora em princípio e ora em um postulado, muito embora normalmente seja considerada norma da espécie “princípio”, o que se faz, na maior parte das ocasiões, de forma descuidada do ponto de vista terminológico.
Por vezes se denomina legalidade administrativa a norma tipicamente comportamental, endereçada ao Poder Público ou a quem lhe faça às vezes, pela qual a Administração Pública somente poderia agir se houvesse permissivo legal que precedesse e estabelecesse os meios de atuação. Tal reserva legal – Vorbehalt des Gesetzes –, mitigada recentemente sobretudo em relação à edição de atos normativos com a promulgação da Emenda Constitucional n° 32/01, corresponderia à legalidade administrativa como “regra jurídica”.
Numa segunda acepção normativa, é possível utilizar-se da legalidade administrativa enquanto instrumento a ser utilizado na finalidade de promoção do controle do Poder Estatal, num verdadeiro fato sociológico, prestando-se como princípio regulador da conduta dos órgãos de mando . No que tange a direitos e garantias fundamentais, o princípio da legalidade administrativa tem por principal desiderato dimensionar com significativa previsibilidade quais os meios de atuação estatal que, nas mais variadas formas, podem restringir liberdades outorgadas aos cidadãos e, contrario sensu, aquelas outras em que a ingerência estatal seria vedada. Nesse sentido, intimamente coligado à noção de segurança jurídica, encontra-se a legalidade administrativa enquanto princípio.
Por fim, a legalidade administrativa pode ser considerada como uma norma da espécie “postulado”. Nesse sentido, costuma-se apontar como um dos significados da legalidade, a denominada “primazia da lei”, expressão essa também cunhada por Otto Mayer – Vorrang des Gesetzes – segundo o qual “cuando la voluntad del Estado tiene ese origen [a lei e, como se verá, o Direito como um todo], no puede ser validamente anulada modificada o privada de sus efectos por ninguma otra via; por otro lado, ella anula todos los actos ya emitidos en nombre del Estado, que le sean contrários” .
Tal significado, originalmente coligado à estrita legalidade, ampliou-se para submeter, sob pena de invalidade, a atividade de administração pública à lei e ao Direito, consoante determinado pelo próprio Artigo 2°, § único, I, da Lei n° 9.784/99. Ou seja, tal significado, verdadeiro vetor hermenêutico, impõe seja considerada inválida e se oriente à sua desconstituição toda e qualquer forma de atuação administrativa do Estado que se desgarre da lei que lhe embasa e do Direito como um todo, sobretudo em relação aos demais princípios que lhe sejam norteadores, tais como moralidade, impessoalidade, razoabilidade etc. Com esse significado mais amplo de legalidade administrativa , tem-se que os atos não devem ser praticados somente em conformidade com as regras jurídicas que lhe sejam aplicáveis. Devem, ao mesmo tempo, ser praticados de forma compatibilizada com as demais normas (princípios e postulados) de Direito Administrativo. Nesse sentido, inegável que a “afirmación y desarrollo de esta jurisprudencia de principios domina avasalladoramente el momento actual de la ciencia jurídica” .
Trata-se de um imperativo que impõe seja a Administração Pública colocada em face à lei e ao Direito através daquilo que José Carlos Vieira de Andrade denominou de “heteronomia imperfeita”, ou seja, “cada acto administrativo está em parte determinado por normas abstractas que tem de respeitar e de executar, em parte correspondente a momentos autónomos de ‘concretização’, de ‘desenvolvimento’ ou de ‘criação’ de órgão administrativo” . Assim, inobservadas tais normas abstratas – regras e princípios –, padecerá a conduta concreta em questão de um vício de invalidade. Ou seja, havendo tensão entre o que, de um lado, a lei e o Direito prevêem e, de outro, o que realmente se levou a efeito quando da atividade concreta do Estado, ter-se-á que aqueles – lei e Direito – mostram-se primazes em relação a esse – o ato praticado, atribuindo-lhe pois a condição de inválido.
Trata-se de um postulado normativo aplicativo – vetor metodológico de interpretação – “porque vincula a interpretação e a aplicação à lei e ao Direito, preexcluindo a utilização de parâmetros alheios ao ordenamento jurídico” . Utilizando-se de uma metáfora já referida em outro sentido por Hans Kelsen, a lei e o Direito delimitam uma espécie de moldura à qual restará limitada toda a atuação administrativa do Estado.
Tal é a legalidade administrativa como postulado normativo aplicativo, significado esse que, por óbvio, apresenta-se intimamente relacionado com os demais significados normativos da legalidade – como princípio e como regra.
II. Autotutela administrativa:
Como se pode depreender dos ensinamentos de Mariano Bacigalupo toda norma de conduta consiste, simultaneamente, em uma norma de controle. Diante disso, faz-se imperiosa a conclusão de que de nada serviria a adstrição da função administrativa ao ordenamento jurídico, se não houvesse instrumentos de efetivo controle da juridicidade da administração pública.
Em relação ao controle jurisdicional da Administração Pública, a sua viabilidade jurídica e o fundamento constitucional de dito modo de sindicabilidade encontra-se no princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional de lesões ou ameaças a direitos, insculpido no Artigo 5°, XXXV, da CF/88. Ou seja, havendo a lesão ou ameaça a direitos subjetivos ou interesses legítimos, mesmo que tal lesão seja oriunda da atividade estatal de administração, poderá o Poder Judiciário, sem qualquer risco de comprometer o equilíbrio entre os poderes, promover o controle da Administração Pública.
O controle da Administração Pública promovido pelo Poder Legislativo encontra exemplos dos mais variados, desde as simples solicitações de informações a autoridades administrativas, como previsto no Artigo 50, § 2°, da Constituição Federal, passando pela necessidade de aprovação da indicação de pessoas para ocupar cargos públicos, como previsto no Artigo 52, III, também da CF, até culminar num dos mais efetivos modos de sindicabilidade parlamentar da atividade a administrativa orçamentária e para-orçamentária, qual seja, aquele controle promovido pelos Tribunais ou Cortes de Contas, cujos limites de atuação encontram previsão nos Artigos 70 e seguintes da Carta Política.
O modo de controle que mais interessa ao presente ensaio, todavia, não é o controle jurisdicional nem o legislativo da Administração Pública. O assunto sobre o qual se verte atenção diz com o controle que é promovido pela mesma Administração Pública responsável pela conduta controlada.
Trata-se pois do controle que se convencionou denominar de “interno”, cujo fundamento constitucional é encontrado, mediatamente, na própria legalidade administrativa e, imediatamente, no Artigo 74, da CF/88, pelo qual “os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário manterão, de forma integrada, sistema de controle interno...”. Tais fundamentos, grosso modo, subsumem-se à noção de “autotutela administrativa”.
Estando assim a Administração Pública adstrita ao ordenamento jurídico (primado da juridicidade), por certo não se pode cogitar de estar a mesma privada de promover o controle de seus próprios atos. Aliás, foi justamente para garantir tal legitimação de controle interno que se editou, em 1969, a Súmula 473 do Supremo Tribunal Federal, verdadeiro paradigma sobre o assunto, pelo qual a Administração Pública “pode” anular seus próprios atos administrativos. Cumpre salientar que o emprego do verbo “poder”, no caso da Súmula 473, que substituiu a Súmula 346, de conteúdo semelhante, não veio responder à indagação acerca de a Administração “poder” ou “dever” invalidar seus próprios atos administrativos viciados. Prestou-se, isso sim, a solucionar a dúvida acerca de “poder” ou “não poder” a Administração Pública invalidar seus próprios atos administrativos eivados de vícios insanáveis.
Seja como for, é perceptível que o tema em lume – autotutela administrativa – evoluiu sobremaneira nas últimas décadas, de sorte que hodiernamente não há dúvidas de que, em princípio, a Administração Pública teria um dever de invalidar seus próprios atos administrativos viciados, o que inclusive, encontra respaldo no Artigo 53 da Lei n° 9.784/99, segundo o qual “a Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade” .
Pode ser afirmado, nesse sentido, que os destinatários da função administrativa possuem uma espécie de direito público subjetivo a uma atuação da Administração Pública, que observe os ditames da lei e do Direito. Há, nesse sentido, algumas regras que prevêem o referido direito público subjetivo como, v.g., preceituado no Artigo 4°, caput, da Lei de Licitação . Esse direito subjetivo público à legalidade lato sensu, enquanto postulado que transcende aos interesses ou direitos individuais dos administrados, corresponde a um dever de “legalidade objetiva” a que está submetido o Estado, ou seja, “à necessidade da existência e da observância de um quadro normativo da acção administrativa por simples razão de interesse público, independentemente, portanto, de saber se as actuações administrativas poderão lesar direitos ou interesses legítimos” .
Não se pode negar a existência de tal “direito subjetivo à legalidade objetiva”, sob pena de se considerar que a inserção da legalidade administrativa no texto constitucional fora em vão. Ou seja, a nada serviria falar-se em um Estado de Legalidade (em acepção ampla), se não se previsse o dever de a Administração Pública primar pela juridicidade de suas próprias condutas. Do mesmo modo, teratológico seria restringir a possibilidade de anulação das condutas administrativas inválidas ao controle jurisdicional. A Administração Pública tem assim um “dever-poder” de invalidar seus próprios atos administrativos quando constatar que os mesmos foram praticados à revelia da lei aplicável e do Direito como um todo. Isso porque, consoante ensinamentos de Celso Antônio Bandeira de Mello , a prerrogativa de invalidação que se atribui à Administração sujeita-se a uma finalidade voltada, mediatamente, à satisfação de todos os administrados e, imediatamente, ao aprimoramento da atividade pública e à garantia de que o Poder Público não estará imiscuindo-se indevidamente na esfera de direitos de todos quantos forem aqueles que com ela se relacionem.
Ocorre que o dever-poder (direito enquanto prerrogativa pública) de a Administração anular seus próprios atos viciados tem – como não poderia deixar de ter – alguns temperamentos, algumas exceções que, em geral, fundamentam-se na necessidade de se cotejar e se ponderar o princípio da legalidade com outros valores não menos importantes ao Direito Administrativo. Ora, nenhuma norma – seja uma regra, um princípio ou um postulado – possui status de absoluta. À guisa de exemplos, se encontram exceções, no próprio texto constitucional, à liberdade, à propriedade e à própria vida . Por que não existirem temperamentos ao princípio da legalidade e à autotutela? Por que tratá-las como normas absolutas?
Dentre os demais valores a serem igualmente protegidos pelo Direito Administrativo pátrio, quando se vislumbram normas como “proteção à confiança” , “garantia de legítima expectativa”, “boa-fé” e, por todos, “segurança jurídica”, tem-se a eclosão de regras como a presente no Artigo 54, da lei n° 9.784/99.
III. Artigo 54, da Lei n° 9.784/99 – Boa-fé como valor a ser ponderado com a legalidade na concretização da segurança jurídica:
Almiro do Couto e Silva, em trabalho precursor acerca da ponderação entre a segurança jurídica e a legalidade administrativa , ensina que aquela se encontra juntamente com a justiça, no aspecto material do Estado de Direito, enquanto que essa, ao lado da proteção à boa-fé e outros primados jurídicos, perfaria a face formal do Estado de Direito. Inafastável assim que se deva “temperar” a legalidade administrativa, em todas suas facetas normativas, com os sabores de outros cânones não menos relevantes ao Estado de Direito , os quais devem convergir na direção da noção de segurança jurídica, recentemente reconhecida como princípio constitucional pelo Supremo Tribunal Federal .
Nenhum reparo pode ser feito a tais considerações. Com efeito, a legalidade administrativa, aqui analisada como princípio, visa, ultima ratio, à promoção da segurança jurídica, a partir de um pressuposto de justiça que lhe é inerente. Já a boa-fé (ou proteção à confiança), também analisada como princípio, visa do mesmo modo à consecução da segurança jurídica. Assim, desde que uma determinada circunstância qualificada pela boa-fé mereça uma condição prioritária em relação à legalidade (aqui na perspectiva de postulado, que acompanha quase todo presente ensaio), surgirá de tal ponderação a mitigação da legalidade em relação à boa-fé, desde que isso se preste a garantir o aspecto material do Estado de Direito traduzido na segurança jurídica.
O Artigo 54, da Lei n° 9.784/99 consiste em um dos exemplos em que a boa-fé é ponderada com a legalidade e, a partir de critérios objetivos e determinados – natureza do ato e lapso temporal de sua prática – predominará, com a mantença do ato em face da ocorrência da decadência do direito de a Administração anular seus próprios atos, em que pese tal invalidação fosse imperiosa, segundo a análise totalizada da legalidade e da autotutela.
Trata-se do que Jesús Gonzáles Pérez denomina de princípio favor acti, através do qual se determina o “mantenimiento de um acto que, de no operar el principio [da boa-fé], debería desaparecer del mundo jurídico” . E, indo além, o referido autor espanhol, ao reconhecer a afronta à boa-fé como forma autônoma de invalidade , entende que se a Administração Pública promover a invalidação de um ato administrativo inválido, cuja mantença fosse um primado de boa-fé e de segurança jurídica, então o próprio ato de anulação seria inválido. Propõe o autor, em tal circunstância, a “invalidez del acto – del acto anulatorio de otro anterior – porque el principio de la buena fe imponía la conservación del anulado” .
A ponderação entre a legalidade e a boa-fé, no caso do preceito em comento, é perfeitamente cabível, uma vez que dele se extrai, como já afirmado, critérios objetivos e determinados. Servem tais critérios de verdadeiros instrumentais concretos de ponderação que há de se promover entre os valores acima referidos, sempre com vistas à obtenção de um estado de segurança jurídica. Cumpre enfatizar que, se não existissem os referidos critérios como produto da lei ou da jurisprudência, estar-se-ia diante de um temerário risco de recairmos em mero decisionismo, seja judicial, seja administrativo, em que se poderia manejar, de acordo com o puro alvitre do intérprete, tanto a legalidade quanto a boa-fé, como fórmulas vagas, despidas portanto de qualquer elemento hermenêutico que as aproximasse de um discurso jurídico racional. A inexistência de critérios objetivos e previamente determinados quanto à ponderação entre a legalidade e a segurança jurídica geraria, por mais paradoxal que pareça, um estado de insegurança jurídica .
Tais critérios objetivos de ponderação hermenêutica devem ser tratados de forma cuidadosa para que a própria ponderação não corresponda a uma ameaça à segurança jurídica. Todavia, antes mesmo de se analisar ditos critérios de ponderação, faz-se conveniente uma breve consideração acerca da natureza decadencial do prazo extintivo subjacente ao Artigo 54, da Lei nº 9.784/99.
Por certo, a regra jurídica em questão refere-se a um prazo de natureza decadencial. Assim, ao que parece, não se pode mais discutir se se trata ou não de decadência. Todavia, considerando-se que ainda há vozes no sentido de que se trataria de uma espécie de prescrição , há de se analisar, nesse passo, se a regra jurídica em estudo andou bem em fixar a natureza do prazo extintivo do direito (dever-poder) de a Administração Pública invalidar seus próprios atos administrativos viciados. Não se trata pois de se encontrar a natureza jurídica do prazo. Essa já está definida pela lei. Trata-se de analisar a correção da natureza jurídica determinada pela lei.
Respondendo-se, objetivamente, à indagação quanto à natureza do prazo extintivo estudado, há de se entender que a lei andou bem quando fixou um prazo de natureza decadencial à hipótese. Consabido que o critério verdadeiramente científico para a diferenciação entre prescrição e decadência consiste na natureza do “direito” sobre o qual incidiria, direta ou indiretamente, o prazo extintivo, bem como sobre a natureza das providências pertinentes à sua extinção. Tais são os ensinamentos de Agnelo Amorim Filho , a partir da distinção entre “direitos a uma prestação” e “direitos potestativos” proposta, por seu turno, por Giuseppe Chiovenda.
Diante disso, deveriam ser utilizados os seguintes critérios: a) se a pretensão protegida consiste em um “direito a uma prestação”, ou seja, aquele direito cujo pólo passivo da relação jurídica consiste em uma dever de prestação (dar, fazer ou não-fazer), então o prazo extintivo da respectiva ação – de natureza condenatória – seria de natureza prescricional; de outro lado, b) se a pretensão dissesse respeito a um “direito potestativo”, isto é, aquele que tem no pólo passivo da relação jurídica um dever de sujeição, protegido, via de regra, por uma pretensão constitutiva, positiva ou negativa, nesse caso, se houvesse prazo para o seu exercício, tal prazo seria decadencial. E, por fim, c) nos casos de pretensão a uma declaração ou, nos casos de direitos potestativos sem qualquer limitação temporal para o exercício, estar-se-ia diante de situações de imprescritibilidade .
Quanto se trata da prerrogativa de invalidação de atos administrativos pela Administração, afigura-se insofismável que se está diante de um “direito” (dever-poder) potestativo, em que o destinatário do ato inválido há de submeter-se, em princípio, à autotutela administrativa. Ocorre que a própria lei prevê um prazo para que tal direito (dever-poder) possa ser exercido, no caso de ser um ato administrativo que traga benefícios aos destinatários. Ou seja, se está diante de um direito potestativo com prazo para o exercício, fora do qual tal prerrogativa não mais poderia ser utilizada. Assim, o prazo previsto no Artigo 54 da Lei n° 9.784/99, segundo os ensinamentos de Agnelo Amorim Filho, não poderia ser outro senão o prazo de natureza decadencial .
Feitas tais considerações acerca da natureza jurídica do prazo extintivo em questão, passa-se à análise dos critérios de ponderação entre a legalidade administrativa e a boa-fé, com vistas à obtenção da segurança jurídica. O primeiro critério diz respeito à natureza do ato administrativo. Quanto aos efeitos dos atos administrativos em relação aos destinatários, podem os atos administrativos ensejar benefícios ou restrições. Aqueles são denominados atos ampliativos , enquanto esses são denominados atos ablativos, em que pese tais denominações não estejam imunes às mais variadas críticas.
Segundo tal critério, o prazo decadencial previsto no Artigo 54 da Lei n° 9.784/99 somente existiria no caso de invalidade de atos administrativos ampliativos, ou seja, atos administrativos dos quais decorram efeitos favoráveis aos seus destinatários. Contrario sensu, se o ato administrativo inválido for ablativo, ou seja, daqueles que impõem restrições, gravames ou sanções aos seus destinatários, não haverá de se cogitar do referido prazo decadencial, podendo ser sua invalidação promovida ad aeternum.
Tal critério objetivamente considerado – ser o ato administrativo inválido produtor de efeitos benéficos (ampliativos) ou de efeitos restritivos (ablativos) – não é imune a problemas, segundo informa José Manuel Sérvulo Correia . O primeiro deles diz com aqueles casos em que se conjugam num mesmo ato, em relação a um mesmo destinatário, efeitos benéficos e detrimentosos. Ou seja, um mesmo ato pode ser, a um só tempo e em relação a um mesmo destinatário, ampliativo e ablativo. Imagine-se, a título de exemplo, um ato administrativo negocial em que, ao mesmo tempo, se garanta a possibilidade de desempenho de certas atividades comerciais e se imponham restrições de horários de funcionamento.
Um outro problema que advém do critério pertinente à natureza ampliativa ou ablativa do ato inválido, consiste na hipótese em que um mesmo ato administrativo tem vários destinatários, sendo ampliativo em relação a alguns deles e ablativo em relação aos demais. Pense-se em um ato resultante de qualquer mecanismo de seleção pública – licitação, concurso público etc – em que há destinatários que gozarão de seus efeitos, enquanto outros serão preteridos pelo ato.
Tais problemas, uma vez diversos, exigem solução também diversa. Quanto ao primeiro dos problemas que decorre do critério “natureza do ato”, ou seja, quanto ao fato de que pode haver atos administrativos dos quais decorram, a um só tempo, efeitos benéficos e efeitos prejudiciais aos seus destinatários, a solução deveria consistir em não ser aplicado o prazo decadencial previsto no Artigo 54, da Lei n° 9.784/99. Tal conclusão, ao que parece, é um imperativo de interpretação jurídica. Tem-se que, quando se está diante de uma regra dotada de exceções, interpreta-se aquela de modo extensivo e estas de modo restritivo. Trata-se da regra hermenêutica traduzida pela parêmia “odiosa restringenda, favorrabilia amplianda”. No caso da invalidação dos atos administrativos pela própria Administração Pública, não se pode questionar que a regra é o dever-poder de invalidação, aliás, como determinado pelo Artigo 53, da Lei n° 9.784/99. A implementação do prazo decadencial proibindo a invalidação é verdadeiramente uma exceção à regra. Assim, deve-se interpretar tal exceção restritivamente. Ou seja, a decadência somente ocorrerá naquelas hipóteses em que do ato administrativo inválido decorrerem exclusivamente efeitos benéficos ao destinatário, com o que se coexistirem efeitos ampliativos e ablativos, a invalidação poderá ocorrer a qualquer tempo.
O segundo problema que decorre da natureza do ato inválido diz respeito àquelas situações em que o ato traz benefícios a alguns destinatários, impondo restrições a outros. Em tais circunstâncias, ao que parece, a solução dependerá das providências eventualmente tomadas pelos destinatários preteridos ou prejudicados. Como se pode depreender da própria regra em comento, o que se pretende é justamente a estabilização de atos administrativos que, a despeito de terem sido praticados de modo inválido, já produziram seus efeitos jurídicos por largo tempo, sem que as providências invalidatórias houvessem sido tomadas. Assim, se os destinatários preteridos – os principais interessados na invalidação – não utilizarem qualquer meio de impugnação administrativa, não poderá a Administração Pública promover a invalidação do referido ato administrativo, se implementadas as demais condições para a ocorrência da decadência. Aplica-se, analogicamente, o preceituado no Artigo 54, § 2°, da Lei n° 9.784/99, regra pela qual “consideração exercício do direito de anular qualquer medida de autoridade administrativa que importe impugnação à validade do ato”. Assim, se os preteridos pelo ato administrativo em questão houverem interposto, por exemplo, o recurso administrativo cabível, enquanto esse tramitar, não haverá o transcurso do prazo de implementação da decadência. Caso os destinatários não se utilizem dos meios que lhe são colocados à disposição para a insurgência administrativa contra o ato e, além disso, se a Administração Pública ficar inerte, ultrapassados os cinco anos previstos para a decadência, não mais poderá ocorrer a invalidação do ato. Cumpre salientar que tais considerações não dizem respeito à invalidação judicial dos atos administrativos. Tal tema, como acusa o corte temático inserido nas notas introdutórias a esse trabalho, exorbita do foco de preocupação do presente ensaio.
Quanto ao segundo critério de ponderação entre a boa-fé e a legalidade administrativa, também prevista pelo Artigo 54, da Lei n° 9.784/99, corresponde ao prazo qüinqüenário a contar da prática do ato viciado ou, no caso a efeitos patrimoniais contínuos, da percepção do primeiro pagamento . Trata-se de um critério flagrantemente objetivo, cuja aferição faz-se, por isso mesmo, singela. O lapso temporal é, como não poderia deixar de ser, determinante para a implementação do prazo extintivo decadencial.
Assim, se do ato administrativo inválido houver transcorrido um prazo inferior a cinco anos, a Administração Pública não somente terá o direito de invalidá-lo, como aliás, terá o dever de fazê-lo, mesmo que o destinatário do ato esteja de boa-fé.
De outra banda, se da prática do ato, exceder o prazo de cinco anos, a Administração Pública estará proibida de invalidar o ato viciado, dada a concretização da decadência, diante da boa-fé presumida do destinatário do ato benéfico.
A ponderação revela-se cristalina, ou seja, a contar da prática do ato administrativo inválido, até o decurso do prazo de cinco anos, a legalidade administrativa deverá preponderar e, no exercício de autotutela administrativa, a Administração Pública deverá invalidar o ato, desconstituindo retroativamente os seus efeitos, ressalvados os terceiros de boa-fé . Ao contrário, se o prazo de cinco anos houver sido ultrapassado, preponderará a boa-fé – presumida – do destinatário, restando a Administração Pública proibida de invalidar (ou anular, aqui como sinônimos) seus próprios atos administrativos, seja o ato nulo ou anulável .
O prazo de cinco anos presta-se como uma espécie de marco divisor da concessão de efeitos jurídicos à inércia da Administração Pública quanto ao dever de invalidação dos seus atos administrativos viciados. Por certo, o que se pretende é que a Administração Pública invalide seus próprios atos administrativos quando constatar a invalidade neles presentes como forma, inclusive, de aprimoramento da atividade administrativa, bem assim de garantia à legalidade objetiva, já referida.
Todavia, deixar de se fixar prazo para o exercício de tal prerrogativa invalidatória ensejaria situação de flagrante insegurança jurídica, razão pela qual o ordenamento jurídico determinou um limite temporal a partir do qual não mais poderia a Administração Pública exercer o seu “direito” de invalidação dos atos administrativos inválidos. Nesse sentido, pode-se dizer, tal como faz Paulo Otero, que o “tempo desempenha em Direito Administrativo, tal como em qualquer outro sector do ordenamento, um papel de facto gerador do ‘esquecimento’ de situações jurídicas contrárias ou conformes à legalidade jurídico-positiva, modificando e invertendo o seu sentido ou os seus efeitos” .
O critério prazal, tal como o que ocorre com o critério que diz com a natureza jurídica do ato viciado, possui, dada sua objetividade e clareza, um único problema, talvez pela recentidade da regra. Trata-se da aplicação da regra em questão nas hipóteses em que o ato administrativo viciado é anterior à vigência da lei em análise, ou seja, anterior a 29 de janeiro de 2001.
Quanto ao assunto, há decisões no sentido de que tal prazo decadencial somente existiria para atos administrativos viciados praticados já na vigência da Lei n° 9.784/99 . Tais decisões fundamentam-se na premissa de que o prazo decadencial somente teria surgido com o advento do referido Diploma Legal. Se essa premissa fosse verdadeira, seriam as decisões referidas igualmente verdadeiras. Essa é a questão. A premissa utilizada para se afirmar que o termo a quo do prazo decadencial é a própria lei, nos casos dos atos viciados praticados anteriormente à sua vigência, ou seja, a consideração de que tal prazo decadencial somente decorreria da Lei n° 9.784/99 revela-se equivocada.
O equívoco da referida premissa está justamente no fato de a existência de um prazo decadencial para a invalidação dos atos administrativos pela própria Administração Pública não se fundamenta “somente” no Artigo 54, da Lei n° 9.784/99, mas do próprio princípio da boa-fé, com vistas à mantença de situações já consolidadas há largo tempo. Há, também nesse sentido, decisões paradigmáticas .
Ademais, a melhor doutrina já reconheceu que mesmo diante da ausência de regras jurídicas que explicitem a decadência em tela, ainda assim, ela deveria ser observada , justamente no intuito de se evitar a perpetuação de uma prerrogativa administrativa dotada de grave potencial de alcance no rol de direitos dos destinatários da função administrativa.
Dessa forma, utilizando-se dos critérios objetivos de ponderação acima referidos – natureza do ato administrativo e decurso de prazo a contar da prática do ato administrativo – deve-se vislumbrar no Artigo 54, da Lei n° 9.784/99, um importante instrumento de ponderação entre a legalidade administrativa e a boa-fé, com vistas à obtenção de um estado de segurança jurídica.
Conclusões:
Toda a atividade de interpretação jurídica que tenha como norte uma única norma jurídica traduz-se em uma espécie de contradição em termos, uma vez que construção e reconstrução que devem ocorrer no fenômeno de aplicação concreta do Direito demanda necessariamente uma contextualização de todos os princípios, regras e postulados jurídicos que sejam incidentes naquele momento histórico e naquele determinado local.
Apegos acríticos, verdadeiros preconceitos, não podem ser bem-vindos a qualquer área da ciência jurídica. Nesse compasso, há de se considerar a legalidade administrativa como norma multifacetada dotada de grande relevância ao Direito Administrativo. Todavia, afigura-se contrário à própria evolução da ciência jurídica atribuir a qualquer norma – inclusive à legalidade administrativa – feição de absoluta. Afirmações no sentido de que “no Direito Administrativo não se faz justiça, aplica-se a lei”, ou de que “se a lei prevê, então que se a aplique” devem ser prontamente refutadas. Do mesmo modo, a frase “o que é nulo não produz efeitos e deve ser necessariamente invalidado” não poder receber a aceitação que por vezes lhe é concedida.
Deve-se cotejar a legalidade administrativa com as demais normas jurídicas que incidem sobre o Direito Administrativo, aí obviamente incluída a boa-fé, sempre com vistas à consecução de um estado de segurança jurídica.
O referido cotejo entre a legalidade e a boa-fé tendo a segurança jurídica como norte é concretamente previsto na regra do Artigo 54, da Lei n° 9.784/99, cuja dimensão e importância certamente não foram alcançadas no presente ensaio, o qual teve por desiderato uma limitada contribuição ao tema, a partir do enfrentamento de questões que se reputaram relevantes.
Lei n° 9.784/99, Art. 54. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em 5 (cinco) anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé.
Dever-poder, como será analisado posteriormente.
Atos que conferem benefícios aos destinatários são denominados “atos ampliativos”, os quais, segundo José Manuel Sérvulo Correia, são aqueles que “constituam direitos na esfera jurídica do destinatário, eliminem restrições ao exercício de direitos pré-existentes, eliminem ou restrinjam obrigações, ou, ainda, que constituam na esfera jurídica do particular situações jurídicas activas diferentes dos direitos subjectivos, designadamente simples poderes ou faculdades” (SÉRVULO CORREIA, José Manuel. Legalidade e autonomia contratual nos Contratos Administrativos. Coimbra: Almedina, 1987, p. 290). No texto em comento, utilizou-se a expressão “atos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários”.
“Uma lei geral de processo administrativo não regula apenas os chamados processos administrativos em sentido estrito, mas toda a atividade decisória da Administração, sem exceções, independentemente do modo como ela se expressa” (SUNDFELD, Carlos Ari. Processo e procedimento administrativo no Brasil. In: As leis de processo administrativo. Lei Federal 9.784/99 e Lei Paulista 10.177/98. Org. Carlos Ari Sundfeld e Guillermo Andrés Muñoz. São Paulo: Ed. Malheiros, 2000, p. 19).
“Regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal”.
Dois são os trabalhos do Prof. Almiro do Couto e Silva que deram base ao conteúdo da norma jurídica contida no Artigo 54, da Lei n° 9.784/99 (COUTO E SILVA, Almiro. Princípios da legalidade da Administração Pública e da segurança jurídica no Estado de Direito Contemporâneo. In: RDP n° 84/46 e COUTO E SILVA. Almiro. Prescrição qüinqüenária da pretensão anulatória da Administração Pública com relação a seus atos administrativos. In: RDA n° 204/21).
A Lei n° 9.784/99 resulta do Projeto de Lei n° 2.464/96, do Poder Executivo, para cuja elaboração foi constituída comissão composta por Caio Tácito, Odete Medauar, Inocêncio Mártires Coelho, Diogo de Figueiredo Moreira Neto, José Carlos Barbosa Moreira, Almiro do Couto e Silva e Maria Sylvia Zanela Di Pietro, designados através da Portaria n° 1.404, de 17.10.1995, do Ministério da Justiça, os quais receberam o reforço de Adilson de Abreu Dallari, José Joaquim Calmon de Passos, Carmen Lúcia Antunes Rocha e Paulo Eduardo Garrido Modesto, através da Portaria Conjunta n° 47, de 31 de janeiro de 1996, dos Ministérios de Estado da Justiça e da Administração Federal e Reforma do Estado.
Prescrição..., p. 31.
Para uma crítica à perspectiva totalizante e absoluta do princípio da legalidade, contrária, pois, ao seu próprio mister axiológico, vide OHLWEILER, Leonel. Direito Administrativo em perspectiva. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2000, passim.
Almiro do Couto e Silva ensina, ainda, que “A Administração Pública brasileira, na quase totalidade dos casos, aplica o princípio da legalidade, esquecendo-se completamente do princípio da segurança jurídica. A doutrina e a jurisprudência nacionais, com as ressalvas apontadas, têm sido muito tímidas na afirmação do princípio da segurança jurídica” (Princípio da legalidade... p. 62).
ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios. Da definição à aplicação dos princípios jurídicos. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 25.
Nesse sentido, “o Direito Administrativo é determinado por toda uma série de princípios. O mais importante é, seguramente, o princípio da legalidade da administração pública” (MAURER, Hartmut. Elementos de Direito Administrativo Alemão. Trad. Luís Afonso Heck. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2001, p. 45).
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro, 24ª ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 1999, p. 82. Importante salientar que tal frase, com pequenas variações, já era encontrada em obra de João Barbalho Uchôa Cavalcanti, datada de 1903. Dizia-se, naquela oportunidade, que “ao individuo é reconhecido o direito de fazer tudo quanto a lei não tem prohibido, e não póde elle ser obrigado sinão ao que elle lhe impõe. ... Com a autoridade, porém, com os funccionarios públicos, dá-se justamento o contrario, - só podem fazer, nessa qualidade, o que a lei autorisa, como n’outra parte já expozemos” (CAVALCANTI, João Barbalho Uchôa. Constituição Federal Brasileira (1891). Brasília: Senado Federal, Conselho Editoria, 2002, p. 302).
Op. cit., p. 23.
Segundo o referido professor, “a proposta aqui defendida diferencia-se das demais porque admite a coexistência das espécies normativas em razão de um mesmo dispositivo. Um ou mais dispositivos podem funcionar como ponto de referência para construção de regras, princípios ou postulados. Ao invés de alternativas exclusivas entre as espécies normativas, de modo que a existência de uma espécie excluiria a existências das demais, propõe-se uma classificação que alberga alternativas inclusivas, no sentido de que os dispositivos podem gerar, simultaneamente, mais de uma espécie normativa. Um ou vários dispositivos, ou mesmo a implicação lógica deles decorrentes, pode experimentar uma dimensão imediatamente comportamental (regra), finalística (princípio) e/ou metódica (postulado)” (Idem, p. 60).
Sem a pretensão de exaustão, podem ser citados como preceitos que dão fundamento à legalidade administrativa, além dos dispositivos já referidos dispositivos, o Artigo 48, caput, o Artigo 49, V e XI, o Artigo 84, VI, todos do texto da Constituição Federal, bem como o Artigo 25, I, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Idem, p. 119.
Idem, p. 120.
Costuma-se atribuir tal expressão a MAYER, Otto. Derecho Administrativo Alemán, T. I, trad. Horacio H. Heredia e Ernesto Krotoschin. Buenos Aires: Depalma, 1949, p. 95. Tal obra é a tradução da edição francesa de 1903 (Le droit administratif allemand). Todavia, as idéias nela contidas já se apresentavam na edição alemã de 1895 (Deutsches Verwaltundsrecht).
“A legalidade é, desde logo, um facto sociológico: qualquer que seja o modelo de sua estruturação política, toda a sociedade controla em certo grau o poder estadual, isto é, gera e tende a institucionalizar factores sócio-éticos de pressão sobre as autoridades. Nos Estados cuja matriz emerge das ideais e instituições consagradas pela Revolução Francesa, a limitação do poder inspira, como categoria filosófico-jurídica, os poderes constituintes, determinando a afirmação – expressa ou implícita – da legalidade nos textos constitucionais, como princípio regulador da conduta dos órgãos de mando” (SÉRVULO CORREIA, José Manuel. Legalidade e autonomia contratual nos contratos administrativo. Coimbra: Almedina, 1987, p. 17).
Otto Mayer, op. cit., p. 95.
Várias são as denominações pelas quais a doutrina tem batizado tal significado: legalidade lato sensu, bloco de legalidade e, mais recentemente, e com mais razão, “juridicidade”. Vide, nesse sentido, MERKL, Adolf. Teoria general del derecho administrativo. México: Nacional, 1980, passim. Na doutrina brasileira, vide ROCHA, Cármen Lúcia Antunes. Princípios constitucionais da Administração Pública. Belo Horizonte: Del Rey, 1994, p. 69/70.
PÉREZ, Jesús Gonzáles. El principio general de la buena fe en el Derecho Administrativo, 3ª ed. Madri: Civitas, 1999, p. 21.
VIEIRA DE ANDRADE, José Carlos. O dever da fundamentação expressa de actos administrativos. Coimbra: Almedina, 1992, p. 15.
Humberto Ávila, op. cit., p. 61.
“... el mandato constitucional de plena justicialidad de la actividad administrativa significa que allí donde haya uno norma de conducta, dirigida a la Administración, habrá siempre a la vez uno norma de control, dirigida al juez contencioso-administrativo” (BACIGALUPO, Mariano. La discreciuonalidad administrativa. Madri: Marcial Pons, 1997, p. 78. Tal passagem, embora faça referência explícita ao controle jurisdicional da Administração Pública, revela-se plenamente aproveitável a todos os modo de controle aos quais está submetida a função estatal administrativa.
Tal preceito refere ainda à prerrogativa administração de revogação dos atos administrativos, por motivo de conveniência e oportunidade, desde que sejam resguardados os direitos adquiridos oriundos de tal ato. A questão da revogação de atos administrativos exorbita, todavia, o foco de preocupação do presente ensaio. De qualquer sorte, recomenda-se a leitura de TALAMINI, Danielle Coutinho. Revogação de ato administrativo. São Paulo: Malheiros, 2002.
Lei n° 8.666/93, Art. 4°. Todos quantos participem da licitação promovida pelos órgãos ou entidades a que se refere o artigo 1° têm direito público subjetivo à fiel observância do pertinente procedimento estabelecido nesta Lei,...”.
José Manuel Sérvulo Correia, Legalidade ..., p. 293.
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo, 12ª ed. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 32.
Vide a exceção à proibição de aplicação à pena de morte, prevista no Artigo 5°, XLVII, “a”, da CF/88.
Vide, quanto ao princípio da proteção da confiança legítima, BLANCO, Federico A. Castillo. La protección de confianza en el Derecho Administrativo. Madri: Marcial Pons, 1998 e GARCÍA LUENGO, Javier. El principio de protección de la confianza en el Derecho Administrativo. Madri: Civitas, 2002.
Princípio da legalidade ..., p. 46.
O emprego da expressão “temperar a legalidade com outros cânones da estabilidade das relações jurídicas” deve-se a uma remissão a precedentes de lavra do eminente Min. Humberto Gomes de Barros, no Superior Tribunal de Justiça, dos quais se destacam o REsp. n° 6.518/RJ, julgado em 19.08.1991 e o REsp. n° 45.522/SP, julgado em 14.09.1994, ambos pela Primeira Turma daquela egrégia Corte.
Supremo Tribunal Federal, 2ª Turma, Questão de Ordem em Petição n° 2.900, Rel. Min. Gilmar Ferreira Mendes, j. 27.05.2003. Importante ser dito que por ocasião do referido julgado, o Pretório Excelso, através do louvável entendimento do Relator, acatou integralmente aos ensinamentos do Prof. Almiro do Couto e Silva, divulgados através dos ensaios acima referidos.
Op. cit., p. 103.
Atos administrativos sujeitos a registro pelos tribunais de conta e a decadência da prerrogativa anulatória da administração pública. por Rafael Da Cás Maffini
Sumário: Introdução; I. Atos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas e atos administrativos complexos; II. A decadência da potestade administrativa de invalidação de atos e o princípio da proteção da confiança; Conclusões; Referências bibliográficas
Introdução
O Direito e a Constituição são o que as Cortes Constitucionais dizem que são. Tal máxima – referida por Hart – revela-se absolutamente apropriada num sistema judiciário como o brasileiro, em que o Supremo Tribunal Federal é qualificado solenemente na Carta Política como o “guardião precípuo da Constituição” . Demais disso, questões de política judiciária, notadamente aquelas pertinentes ao excessivo volume de demandas que deságuam no Poder Judiciário , germinam uma tendência cada vez mais acentuada de concentração decisória de matérias constitucionais no Supremo Tribunal Federal, em óbvio detrimento dos mecanismos de controle difuso de constitucionalidade . Por certo, a interpretação constitucional oriunda do Pretório Excelso merece respeito e impõe obediência, dada a legitimação institucional que lhe é imanente.
No entanto, o mister institucional cometido ao Supremo Tribunal Federal de ser a boca que pronuncia as palavras da Constituição Federal , seu intérprete autêntico , pois, não o imuniza de críticas. Ao jurista se impõe uma avaliação atenta das decisões exaradas pelo STF – ou por qualquer outro órgão jurisdicional – seja para revelar e reconhecer a correção dos fundamentos que ensejaram a decisão, seja para apontar eventuais equívocos de premissa ou, em sentido mais amplo, a incorreção inerente ao julgamento analisado.
Tal posicionamento crítico, longe de significar afronta ao importante papel desempenhado pelo STF, o coloca em relevo. O produto da atividade jurisdicional necessariamente carece de mediatização humana e, como tal, apresenta-se suscetível a erros. Tanto quanto falível, a condição humana traz consigo a característica da mutabilidade, razão pela qual se permite cogitar de uma alteração de posicionamento , mesmo que levado a efeito pelo Supremo Tribunal Federal.
Ou seja, o papel da Ciência Jurídica, e pois, daqueles que dela se ocupam, deve visar sempre à construção, mesmo que, para tanto, tenha de destruir, no plano teórico, os argumentos jurídicos empregados como fundamentos para as decisões judiciais.
O presente ensaio almeja justamente promover uma análise crítica de uma orientação intrínseca a decisões recentemente levadas a efeito pelo Supremo Tribunal Federal. Tratam-se dos Mandados de Segurança n° 24.958 , 24.997 , 25.015 , 25.036 , 25.037 , 25.090 , 25.095 e 25.192 , todos impetrados contra atos praticados pelo Tribunal de Contas da União.
O que assemelha tais decisões é o fato de que, embora tenham tido um resultado unânime de concessão da ordem pleiteada, deixaram de reconhecer a decadência da potestade administrativa de invalidação ex officio de atos administrativos, sob o argumento de que a jurisprudência daquela corte, segundo o Min. Eros Grau, tem “entendido que o ato de aposentadoria configura ato administrativo complexo, aperfeiçoando-se somente com o registro perante o Tribunal de Contas. Submetido, pois, a condição resolutiva, não se operam os efeitos da decadência antes da integração da vontade final da Administração” .
Em outras palavras, entendeu-se, em relação aos atos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas, que, embora tais atos administrativos tenham sido praticados há largo tempo, o prazo decadencial havido para a Administração Pública promover a sua invalidação não teria o seu termo inicial, senão após a decisão de registro do referido ato pela respectiva Corte de Contas, uma vez que somente após esse momento é que se poderia considerar perfectibilizado o ato administrativo.
Ora, em que pese o já referido papel do STF de “dizer” a Constituição Federal, bem assim da importância dos relatores dos arestos ora criticados – Min. Marco Aurélio e Min. Eros Grau –, que tanto contribuem para a construção do Direito Público pátrio, quer parecer que tais decisões não se coadunam com a melhor aplicação do princípio da proteção da confiança, o qual se apresenta cada vez mais relevante à construção teórica do Direito Administrativo.
A demonstração de que a orientação jurisprudencial aqui criticada desgarra-se efetivamente do princípio acima referido (princípio da proteção da confiança), apresenta-se o objeto desse artigo, o qual será dividido em duas partes.
Na primeira delas, tratar-se-á do enquadramento – ao que parece equivocado – dos atos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas como “atos administrativos complexos”. Num segundo momento, as decisões acima referidas serão criticadas à luz do princípio da proteção da confiança.
I. Atos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas e atos administrativos complexos:
Dispõe o Artigo 71, da Constituição Federal que compete aos Tribunais de Contas apreciar, para fins de registro, a legalidade dos atos de admissão de pessoal, ressalvados para os cargos em comissão, bem como a das concessões de aposentadorias, reformas e pensões. Em outras palavras, uma vez investido um agente público em um cargo, emprego ou função pública, tais atos de provimento serão apreciados pelos respectivos Tribunais de Contas para fins de registro. Do mesmo modo, uma vez perpetrada a aposentadoria, a reforma ou o pensionamento de algum servidor, militar ou dependente de servidor público, esses atos de concessão de benefício previdenciário serão apreciados pelos Tribunais de Contas respectivos para fins de registro.
Tal “apreciação, para fins de registro”, cumpre salientar, consiste na verificação, sem caráter jurisdicional, da legalidade ou, num sentido mais amplo, da validade dos atos administrativos benéficos àqueles que são investidos em funções públicas, inativados ou pensionados pela Administração Pública .
Em face da necessidade de que a investidura e a inativação da maior parte dos agentes públicos sejam submetidas à apreciação e, por fim, ao registro pelos Tribunais de Contas, vários são os julgados exarados tanto pelo Supremo Tribunal Federal quanto pelo Superior Tribunal de Justiça no sentido de que tais atos seriam “atos administrativos complexos” .
Tal conclusão, qual seja, a de que os atos sujeitos a registro seriam “atos administrativos complexos”, rogando-se vênia à tradição e, pois, a quem para ela contribuiu, não parece ser a mais correta. Além disso, mesmo que se entendesse correta tal premissa – atos sujeitos a registro são atos administrativos complexos –, ainda assim não se poderia chegar à conclusão de que a decadência da potestade administrativa de invalidação de atos viciados somente teria o seu termo inicial quando do pronunciamento pelo Tribunal de Contas.
Com efeito, a classificação dos atos administrativos não pode ser considerada tema singelo. Isso porque, de um lado, apresenta-se árdua a tarefa de se catalogar uma categoria tão vasta e abrangente e, de outro, não se pode olvidar que os critérios taxiológicos por vezes carecem de cientificidade. Isso porque tais critérios de classificação são demasiadamente voltados à noção de utilidade, em detrimento da noção de correção. Não se pode olvidar a celebrizada passagem pela qual as classificações não poderiam ser classificadas como certas ou erradas, mas úteis ou inúteis . Em solo pátrio, já se afirmou que “toda classificação em ciência é feita sob o critério da utilidade: as classificações são formuladas para servirem a algum fim. Elas não existem por si, isto é, não derivam da ‘natureza da coisa’” . Além disso, toda a tarefa de classificar e de delinear conceitos jurídicos apresenta-se naturalmente tormentosa. Aos problemas de técnica jurídica, aliam-se outros – talvez mais complexos – de linguagem, de metalinguagem, de hermenêutica .
Especialmente na classificação quanto à formação, ou quanto à composição de vontades, a classificação dos atos administrativos apresenta-se ainda mais tormentosa. Com base nesse critério, costuma-se dividir os atos administrativos em três espécies: atos administrativos simples, atos administrativos complexos e atos administrativos compostos.
Importante referir que uma das razões da já referida dificuldade de serem os atos administrativos classificados quanto à formação se dá justamente por que a diferenciação entre atos complexos e atos compostos é muito sutil, sendo que parte da doutrina se vale de uma classificação dicotomizada (atos simples e atos complexos). Opta-se, no presente ensaio pela divisão tricotomizada supramencionada, porquanto a dita sutil diferença entre atos complexos e atos compostos é justamente o cerne de um dos fundamentos pelos quais se poderia considerar equivocada a orientação jurisprudencial aqui criticada.
A análise da doutrina brasileira sobre a classificação dos atos administrativos quanto à formação há de se iniciar pela compreensão dos ensinamentos de Hely Lopes Meirelles. Para o renomado autor, ato simples seria “o que resulta da manifestação de vontade de um único órgão, unipessoal ou colegiado” . Já o ato administrativo complexo seria “o que se forma pela conjugação de vontade de mais de um órgão administrativo”. Assevera Hely Lopes Meirelles, ainda em relação aos atos complexos, que tal categoria possuiria como elemento essencial “o concurso de vontades de órgãos diferentes para a formação de um ato único”, razão pela qual “só se aperfeiçoa com a integração da vontade final da Administração, e a partir deste momento é que se torna atacável por via administrativa ou judicial” .Por fim, o ato administrativo composto seria aquele que “resulta da vontade única de um órgão, mas depende da verificação por parte de outro, para se tornar exeqüível” . Conclui, então, o autor que “o ato composto distingue-se do ato complexo porque este só se forma com a conjugação de vontade de órgãos diversos, ao passo que aquele é formado pela vontade única de um órgão, sendo apenas ratificado por outra autoridade” .
Em termos gerais, a classificação proposta por Hely Lopes Meirelles e o conceito de ato administrativo complexo, bem como a diferença entre esses e os atos compostos são seguidos pela doutrina brasileira , embora sempre com alguns temperamentos .
O que chama a atenção, entretanto, é que justamente esse conceito de ato complexo preconizado majoritariamente pela doutrina levaria à percepção de que os atos administrativos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas não seriam enquadrados em tal categoria, embora o entendimento doutrinário em tela tenha sido empregado para a construção jurisprudencial aqui criticada, notadamente a decisão exarada por ocasião do julgamento ao Recurso Extraordinário n° 195.861 .
Ora, se ato administrativo complexo é aquele para cuja formação ou existência, apresentam-se necessárias várias vontades conjugadas, os atos administrativos dependentes de registro pelos Tribunais de Contas não podem ser considerados atos administrativos complexos. Isso porque todos os elementos de aperfeiçoamento de tais atos administrativos já são implementados quando da prática dos mesmos pela própria Administração Pública. A simples menção constitucional ao fato de que a apreciação realizada pelos Tribunais de Contas tem como parâmetro a legalidade (ou validade) dos atos verificados induz, per se, a conclusão de que se tratam de atos já existentes.
Nesse sentido, não se pode olvidar a passagem já devidamente celebrizada de Pontes de Miranda, no sentido de que a legalidade (ou validade) é atributo de atos que existem . Ou seja, tendo o Tribunal de Contas o mister de apreciar a legalidade (ou validade) dos atos sujeitos ao seu ato de registro, não se pode considerar tal apreciação uma manifestação volitiva componente ou requisito de sua formação.
Demais disso, ainda a contribuir para o não-enquadramento dos atos sujeitos a registro como atos complexos há de ser considerado um aspecto pertinente à sua produção de efeitos. Em efeito, tais atos sujeitos a registro (investidura, aposentadoria, pensionamento, etc) embora tenha a sua legalidade (ou validade) apreciada ulteriormente à sua efetivação pelos Tribunais de Contas, já produzem desde sua expedição e publicação todos os efeitos que lhe são imanentes. Isso significa dizer que tais atos administrativos não dependem da apreciação e, ao final, do registro pelos Tribunais de Contas para produzirem a totalidade de seus efeitos, uma vez que os mesmos já são produzidos desde a sua perpetração pela própria Administração Pública.
Nesse sentido, tomando-se como exemplo do ato de concessão de aposentadoria de um servidor público inscrito no regime próprio (Art. 40, da CF/88), percebe-se que uma vez concedida a aposentadoria pela Administração Pública, antes mesmo de o ato ser remetido para a apreciação pelo Tribunal de Contas respectivo, já ocorre a produção de todos os efeitos jurídicos decorrentes da inativação. Em efeito, somente com a concessão de aposentadoria pela Administração Pública, portanto, já se opera a vacância do cargo, podendo o mesmo ser prontamente provido por outro servidor . Demais disso, não se pode olvidar que a legislação referente ao tema estabelece que a aposentadoria compulsória é automática e tão-somente declarada por ato vigente a partir do dia imediato à implementação da idade-máxima de 70 anos , enquanto que a aposentadoria voluntária e por invalidez vigora a partir da publicação do respectivo ato . Ou seja, uma vez implementada a idade-máxima, na aposentadoria compulsória, ou publicado o ato, nos casos de aposentadoria voluntária ou por invalidez permanente, o servidor já possuirá o status de inativo, passando a perceber proventos, ao invés de remuneração . Importante salientar que nada disso (vacância, inativação, proventos) exige o dito registro pelo Tribunal de Contas, correspondendo, ao contrário a efeitos já produzidos em face do simples ato de concessão pela própria Administração Pública.
O mesmo ocorre com o ato de investidura dos servidores público em cargos de provimento efetivo. Uma vez aprovados em concurso público, nomeados e empossados, os servidores gozarão de todos os efeitos decorrentes de sua condição funcional, independentemente de qualquer pronunciamento, verificação ou registro pelo Tribunal de Contas. Assim, o conceito de servidor público , a percepção da remuneração , a contagem do tempo de serviço , o prazo para fins de estabilização , o período aquisitivo de férias , a condição de funcionário público para fins penais , a condição de agente público para efeitos da Lei de Improbidade , ou seja, todas as repercussões decorrentes da condição de servidor público, como visto, independem do registro do ato de investidura pelo Tribunal de Contas.
Ou seja, deve-se entender que os atos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas são formal e materialmente autônomos em relação ao ulterior pronunciamento pela respectiva Corte de Contas. A circunstância que lhes peculiariza não condiz com o conceito de ato administrativo complexo, uma vez que esse pressupõe manifestações de vontades conjugadas para a formação de um único ato administrativo. No caso em comento, tem-se duas manifestações de vontade que não só são autônomas, como são formal e materialmente consistentes em atos (manifestações de vontade) autônomos.
Ainda a demonstrar dita autonomia havida entre o ato sujeito a registro e o registro propriamente dito, além do fato de que tais atos sujeitos a registro já produzem seus efeitos desde sua prática/publicação, deve-se recordar que a decisão de registro propriamente dita pressupõe, de forma autônoma, toda uma processualidade, na qual há de se observar, por exemplo, os princípios do contraditório e da ampla defesa. Nesse sentido, deve-se recordar um fato que esclarece tal autonomia de vontade havida nos atos de registro, em relação ao ato objeto de tal verificação. Trata-se do fato de que o próprio STF já se pronunciou, em diversas ocasiões, no sentido de que seria inválida a decisão de negativa de registro – independente do ato sujeito a registro – em que não se observou os princípios do contraditório e da ampla defesa . Ora, inquestionável, pois, a autonomia de tal decisão.
Sendo assim, quer parecer equivocado o enquadramento dos atos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas como atos administrativos complexos, porquanto esse pressupõe vontades conjugadas para a formação de um único ato, enquanto que no caso dos atos sujeitos a registro o que se tem são duas decisões independentes e autônomas, quais seja, o ato propriamente dito e o registro de tal ato.
Isso significa dizer que, segundo a definição que se depreende da doutrina majoritária, os atos sujeitos a registro pelos Tribunais de Contas não seriam atos administrativos complexos, mas atos administrativos compostos. Para se alcançar tal conclusão, destaca-se o ensinamento de Maria Sylvia Zanella Di Pietro, para quem “ato composto é o que resulta da manifestação de dois ou mais órgãos, em que a vontade de um é instrumental em relação a do outro, que edita o ato principal. Enquanto no ato complexo fundem-se vontades para praticar um ato só, no ato composto, praticam-se dois atos, um principal e outro acessório; este último pode ser pressuposto ou complementar daquele” .
Horas Extras - Quando Não São Devidas? por Dante Rossi
São devidas horas extras aos empregados que trabalham além da jornada contratada ou além da jornada máxima prevista em lei, que para a grande maioria dos trabalhadores é de 44 horas semanais.
Há, no entanto, duas exceções no Direito do Trabalho que merecem a atenção dos empregadores. Conforme o art. 62 da CLT, não são devidas horas extras aos empregados que exercem cargo de confiança, como gerentes, diretores e chefes de departamento ou filial, bem como os que exercem atividades externas.
Cabe, no entanto, a análise das características das atividades de cada empregado para que se tenha certeza do seu enquadramento nas exceções acima referidas. Para que o empregado não tenha direito ao recebimento de horas extras pelo exercício de cargo de confiança, deve ter empregados subordinados; ter poderes para advertir, suspender, admitir e demitir empregados; ter poderes outorgados por procuração para tomar decisões em nome da empresa e firmar documentos; não ter seu horário de trabalho controlado pelo empregador; receber remuneração superior aos demais de seu setor. Para que o empregado se enquadre na exceção da norma é necessário que sua atividade esteja vinculada à gestão da empresa, com tomada de decisões importantes e com o recebimento de remuneração capaz de compensar eventuais horas trabalhadas além da jornada considerada como normal ou limite.
Já a relação de emprego daqueles trabalhadores que exercem atividade essencialmente externa, para que não tenham direito ao recebimento de horas extras, deve ter a característica de total impossibilidade do controle da jornada por parte do empregador. Ou seja, o empregado não pode ter horário determinado para comparecer à sede da empresa. Também não pode a empregadora ter como fiscalizar, direta ou indiretamente, os locais e os horários de trabalho do empregado.
Nos dois casos, deve a empresa anotar na CTPS e na ficha de registro a condição de que o empregado exerce atividade não sujeita a controle de jornada e por isso não registra seu horário de trabalho.
Todas empresas devem observar bem tais condições, para que possam aplicar com tranqüilidade as disposições do art. 62 da CLT aos contratos de seus gerentes ou diretores e dos empregados que exercem atividade externa.
Empréstimos dos Empregados Desconto em Folha por Dante Rossi
Os empregados podem autorizar, de forma irrevogável e irretratável, o desconto no contra-cheque de valores referentes ao pagamento de empréstimos e financiamentos.
O referido desconto também pode incidir sobre verbas rescisórias devidas pelo empregador, desde que esteja previsto no respectivo contrato de empréstimo ou financiamento, até o limite de trinta por cento do valor das rescisórias.
Deve o empregador observar tal limitação, bem como outras estabelecidas na Lei Nº 10.820, de 17 de dezembro de 2003, para que não seja posteriormente responsabilizado por descontos que ultrapassem os limites legais.
O empregador terá a obrigação de prestar ao empregado e à instituição as informações necessárias para a contratação da operação de crédito, assim como terá que efetuar os descontos autorizados pelo empregado em folha de pagamento e repassar o valor à instituição consignatária na forma e no prazo previstos em regulamento.
Não pode a empresa impor ao empregado ou à instituição financeira qualquer condição que não esteja prevista na Lei 10820/2003 para a efetivação do contrato e a implementação dos descontos autorizados.
As condições do empréstimo serão objeto de livre negociação entre a instituição financeira e o empregado. Pode a empresa, com a anuência da entidade sindical representativa da maioria dos empregados, ajustar com bancos condições gerais e demais critérios a serem observados nos empréstimos aos empregados.
Também podem os próprios sindicatos, sem ônus para os empregados, ajustar com os bancos acordo que defina condições gerais e demais critérios a serem observados nos empréstimos que venham a ser realizados com seus representados.
Não é permitida aos empregadores ou às entidades sindicais a cobrança de qualquer taxa ou exigência de contrapartida pela celebração ou pela anuência nos acordos com os bancos.
O empregador será o responsável pelas informações prestadas, pela retenção e repasse dos valores, o qual deverá ser realizado até o quinto dia útil após a data de pagamento, ao empregado, de sua remuneração mensal.
Observando as limitações impostas na lei, não tem o empregador qualquer responsabilidade sobre o pagamento dos valores que o empregado tira de empréstimo, assim como não tem impedimento para a realização dos descontos.
Limites na Fiscalização do Ambiente de Trabalhos por Dante Rossi
Todas empresas possuem dúvidas a respeito dos limites existentes na fiscalização do ambiente do trabalho. Pode uma empresa fazer a revista de seus empregados antes da saída? É possível ser filmado o ambiente de trabalho? Caso sejam realizadas essas ações párea a segurança da empresa, há risco de serem causados danos aos empregados?
O cuidado que se deve ter é para que o empregado não seja submetido a situações constrangedoras ou discriminatórias. O empregador não pode investir-se dos poderes de polícia e submeter seus empregados a situações de extremo constrangimento, com total desprezo do direito do cidadão à preservação de sua intimidade. Não pode a empresa realizar revistas íntimas, em que o agente de segurança mantenha contato físico com o colaborador. A revista deve se limitar no máximo aos pertences do empregado. E mais, recomenda-se que o próprio portador realize a abertura da sacola.
Também é lícita a instalação de câmeras de vídeo nos locais de trabalho, como inclusive já se posicionou a 2ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho, conforme decisão proferida nos autos nº TST-RR-533.779/1999.3. Evidentemente câmeras de vídeo não podem ser instaladas em banheiros ou vestiários, sob pena de serem violados os direitos à intimidade de todos – empregados ou não - que vierem a utilizar os referidos locais. Segundo o TST, a instalação de câmeras ... ...em nada ofendem a dignidade do trabalhador.
Ainda, para os casos de revista, a ação ou deve ser praticada indistintamente, para todos, ou deve ser mediante o sistema de sorteio, como ocorre nos aeroportos. Não se deve realizar, por exemplo, em uma fábrica, a revista exclusivamente dos que trabalham na produção e não dos que trabalham na administração. Tal situação caracterizaria nítida discriminação por parte do empregador.
Por fim, cabe destacar que os direitos e garantias individuais estão previstos em nossa Constituição Federal, nos arts. 1º, inciso III, 5º, inciso III, e, sobretudo no art. 5º, inciso X, e devem ser respeitados por todos, independentemente do grau de hierarquia e condição social.
Na negociação coletiva deste ano, um dos itens da pauta de reivindicações da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas do Estado do Rio Grande do Sul e dos sindicatos que representam os empregados foi a supressão da cláusula de nº 40 da nossa Convenção Coletiva de Trabalho. A alegação apresentada pelas referidas entidades foi o seguinte: “a maioria das empresas não obedece os critérios estabelecidos, ocasionando prejuízos aos trabalhadores.”
O SINDIGRAF/RS rebateu as argumentações apresentadas, assumindo o compromisso de continuar orientando as empresas em relação à correta utilização do Banco de Horas. A cláusula de nº 40 foi mantida na Convenção Coletiva de Trabalho. Assim, as empresas adotam o Banco de Horas, em que as horas trabalhadas além ou aquém da jornada normal em determinados dias ou período são compensadas pela correspondente diminuição ou acréscimo em outros dias ou período, devem observar o seguinte:
* a apuração e a liquidação do saldo de horas será feita ao final de cada quadrimestre; * a periodicidade (data de início e fim) pode ser fixada pelo empregador, com prévia comunicação aos empregados e ao sindicato profissional com 5 (cinco) dias de antecedência; * a jornada de trabalho não poderá exceder o limite de 10 (dez) horas diárias, de segunda à sexta-feira, e de 8 (oito) horas aos sábados; * as horas compensáveis possuem o limite de 40 (quarenta) ao mês; * as horas trabalhadas em domingos ou feriados serão computadas em dobro; * o empregado tem o direito de folga em, no mínimo, um sábado por mês, preferencialmente no sábado seguinte ao dia de pagamento; * os empregadores que adotarem a jornada flexível ficam obrigados a manter registro de freqüência; * o saldo do banco de horas deverá ser informado ao empregado e ao sindicato profissional, mensalmente; * no final do quadrimestre, sendo o empregado credor de horas extras, deverá receber o valor correspondente, com os adicionais da lei; * no final do quadrimestre, se o empregado for devedor de horas de trabalho, não poderá sofrer qualquer desconto, iniciando-se nova contagem (zerando o banco de horas).
O importante é que as empresas tenham ciência de que a cláusula do Banco de Horas somente tem validade se forem observados os procedimentos previstos na própria cláusula, acima reproduzidos.
Penhora On-Line – Risco de Bloqueio Múltiplo por Dante Rossi
As empresas que são reclamadas em ações trabalhistas estão sujeitas, no decorrer do processo de execução, à penhora on-line, ou seja, ao bloqueio de saldos bancários, o que vem sendo praticado em razão do convênio firmado entre o Tribunal Superior do Trabalho e o Banco Central.
Tais penhoras tem sido efetuadas, de modo geral, quando a empresa, ao ser citada para efetuar o pagamento do débito ou indicar bens à penhora, silencia, omitindo-se em fazer a nomeação de qualquer bem para garantir a execução. Também ocorre a penhora on-line quando a parte credora não concorda com o bem indicado pela executada.
Não é fato desconhecido - dos advogados e das partes - que reiteradamente ocorrem excessos, como a penhora múltipla, ou seja, de mais uma conta bancária para execução do mesmo valor. Desnecessário referir os percalços e dificuldades causados às empresas, muitas vezes tolhidas no uso dos saldos bancários, inclusive para pagamento da folha de salários. Por essas razões é que se recomenda que as empresas procedam a indicação de bens à penhora, no prazo legal de 48 horas após o recebimento do mandado de citação. Outra possível solução é o cadastramento de uma conta bancária para o direcionamento das execuções, de acordo com os termos do Provimento nº 3/2003 do TST, publicado em 26.09.2003 e republicado em 23.12.2003, cujo conteúdo pode ser obtido através do site www.tst.gov.br.
Em que pese a rigidez da norma em exame, o sistema BACEN-JUD possibilitará às empresas o controle do fluxo de caixa em relação às obrigações decorrentes de condenações trabalhistas, evitando a surpresa do bloqueio inesperado de depósitos bancários.
As observações de ordem prática, traçadas ante a preocupação advinda do procedimento que decorre do sistema BACEN-JUDI, não afastam as críticas que acoimam de ilegal o procedimento adotado pelo convênio. Especialmente quando o valor executado não é definitivo, cabendo às partes impugnar o cálculo por meio de Embargos à Execução e Agravo de Petição. Não se justifica a imediata penhora de numerário, se a execução pende de apuração do real valor devido. Não é demais lembrar a norma do artigo 620 do Código de Processo Civil: "Quando por vários meios o credor puder promover a execução, o juiz mandará que se faça pelo modo menos gravoso para o devedor."
Zelador de Condomínio Residente - Desocupação do Imóvel por Benôni Rossi
Diversos condomínios têm consultado sobre a dificuldade com que se deparam quando despedem, sem justa causa, empregados que exercem a função de zelador, especificamente quando esse empregado reside no apartamento destinado à moradia desse serviçal e seus familiares. É comum, especialmente quando o contrato tem alongada duração, que esses trabalhadores não possuam local para instalar sua nova moradia ou para onde levar seus pertences. A demora na desocupação impede que o condomínio ali instale o novo contratado para a função, gerando os percalços daí decorrentes. Além disso, quando o aviso prévio é indenizado e não trabalhado, o empregado não exerce atividades no período de 30 (trinta) correspondente ao aviso, mas recebe as parcelas rescisórias no prazo de 10 dias, contados da data da concessão do aviso, nos termos do art. 477 da CLT. Vale repetir que, quando o condomínio contrata outra pessoa para o exercício das atividades de zeladoria, depara-se com situação em que esse novo empregado não pode utilizar de imediato o apartamento destinado ao zelador, com prejuízo para o desempenho de suas atividades. Vejamos, então, em que prazo o condomínio pode exigir que o empregado zelador que teve seu contrato rescindido desocupe o apartamento.
Não há, na Consolidação das Leis do Trabalho ou na legislação trabalhista complementar, qualquer dispositivo que regule a matéria. Buscando evitar conflitos que possam decorrer da situação, o SECOVI/RS (SINDICATO PATRONAL) e o SINDEF (SINDICATO PROFISSIONAL) vêm mantendo, nas Convenções Coletivas de Trabalho que se renovam anualmente, cláusulas que regulam essa situação. As de número 24 e 25 da norma coletiva com vigência de 01/03/2002 à 28/02/2003 estabelecem que, para o caso de dispensa sem justa causa, quando concedido aviso prévio trabalhado, terá o empregado despedido direito a um adiantamento de 50% (cinqüenta por cento) do valor da rescisão, no 15º (décimo quinto) dia de cumprimento do aviso prévio, exatamente para disponibilizar ao empregado meios que o auxiliem na busca de nova moradia. Nesse caso, a desocupação deverá se fazer até o 45º dia contado do início do aviso, sob pena de, não o fazendo, pagar ao empregador, a partir do 46º (quadragésimo sexto) dia, valor equivalente a um dia de salário por dia de ocupação do imóvel. Trata-se de uma multa pela não desocupação do imóvel, como determina a convenção.
Para os casos de concessão de aviso prévio indenizado, a desocupação deverá ocorrer no 30º (trigésimo) dia, sob pena de pagamento da mesma multa antes referida, contada a partir do 31º dia de ocupação indevida. Essas disposições da norma coletiva protegem tanto o empregado, que não fica obrigado a desocupar de imediato o imóvel no qual reside, quanto o empregador, que em um curto espaço de tempo tem garantida a retomada da posse do imóvel para destiná-lo a outro trabalhador.
Na hipótese de termo final de contrato de experiência, deverá o empregado desocupar o imóvel até 7 (sete) dias úteis após a data de extinção do vínculo empregatício, sob pena de pagamento de multa diária, na mesma quantificação antes mencionada.
Para os casos de despedidas com justa causa ou pedidos de demissão, a desocupação do imóvel deve ser imediata, ou seja, a partir do dia seguinte ao término do contrato. Não há, no entanto, para esses casos, qualquer penalidade para o empregado que permanece no imóvel.
A CCT bem definiu as obrigações de empregados e empregadores, evitando o abuso do direito por parte de qualquer das partes da relação contratual, suprindo lacuna existente em nossa legislação ordinária.
Em caso de extrapolação dos prazos acima referidos, caberá ao condomínio a interposição de ação de reintegração, nos termos da lei, buscando reaver a posse do imóvel.
Pretendeu-se, em breve exposição, esclarecer síndicos, condôminos e demais interessados sobre direitos e deveres decorrentes de situações que freqüentemente se apresentam nas relações de emprego mantidas com empregados zeladores.
Rossi, Maffini & Milman Advogados conta com mais de 40 anos de profissionalismo, tradição e experiência, atributos que se complementam e convivem em total sinergia em nosso escritório